Em 2023, cerca de 4 em cada 100 britânicos de 16 a 20 anos tinham um diagnóstico de autismo registrado no prontuário. No consultório, números assim chegam em forma de pergunta, quase sempre meio desconfiada: “Doutor, agora todo mundo é autista?”
O aumento dos diagnósticos de autismo em adultos é real, e junto com ele mudou o perfil de quem recebe o laudo. Um estudo publicado em 2026, com registros de mais de 33 milhões de pessoas a partir dos 16 anos no Reino Unido e na Suécia, mostrou que entre 2010 e 2023 passaram a ser diagnosticados mais jovens e mais mulheres, com mais ansiedade e menos epilepsia na história.
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O que o estudo sobre o aumento dos diagnósticos de autismo mostrou?
O estudo mostrou que, entre 2010 e o começo dos anos 2020, os novos diagnósticos de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em adultos subiram nos dois países e que o retrato de quem é diagnosticado mudou bastante. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, ligada ao jeito como o cérebro se forma desde cedo, marcada por diferenças na comunicação social e por interesses e comportamentos mais repetitivos. O trabalho foi publicado em novembro de 2026 na revista BMJ Mental Health por Aws Sadik e colegas, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, e do Instituto Karolinska, na Suécia.
Os pesquisadores analisaram registros de saúde, sem entrevistas: no Reino Unido, prontuários de clínicos gerais de 2010 a 2023; na Suécia, os registros nacionais de toda a população de 2010 a 2021. Contaram, ano a ano, quantos adultos recebiam o primeiro registro de autismo e olharam o que já estava anotado antes no histórico dessas pessoas. As taxas e proporções foram padronizadas por idade, um ajuste que permite comparar anos diferentes.
| Dado | Reino Unido | Suécia |
|---|---|---|
| Período analisado | 2010 a 2023 | 2010 a 2021 |
| Adultos no estudo | 24.537.039 | 9.096.874 |
| Adultos com diagnóstico de autismo | 141.119 | 100.817 |
| Novos diagnósticos por 10 mil pessoas-ano, no início | 0,6 (2010) | 4,3 (2010) |
| Novos diagnósticos por 10 mil pessoas-ano, no fim | 6,4 (2023) | 6,5 (2021) |
“Pessoas-ano” soma o tempo em que cada pessoa foi acompanhada; de forma aproximada, é como contar quantos diagnósticos novos surgem a cada ano num grupo de 10 mil adultos. Na prática, o Reino Unido partiu de um patamar baixo e acelerou muito, principalmente depois de 2019. A Suécia já diagnosticava mais em 2010 e cresceu num ritmo mais lento.
Quem está recebendo o diagnóstico de autismo na vida adulta?
No fim do período estudado, quem recebia o diagnóstico de autismo na vida adulta era, em boa parte, uma pessoa jovem e, cada vez com mais peso, uma mulher. O aumento foi menor em grupos de minorias étnicas, no Reino Unido, e entre filhos de pais nascidos fora da Suécia.
Mais jovens, entre 16 e 20 anos
A faixa de 16 a 20 anos foi a que mais cresceu nos dois países. No Reino Unido, os novos diagnósticos nessa idade passaram de 3,1 para 36,4 por 10 mil pessoas-ano entre 2010 e 2023. Na Suécia, de 16,5 para 36,1 entre 2010 e 2021.
Mais mulheres, com taxa maior que a dos homens
Em 2010, a taxa de novos diagnósticos era maior entre os homens. No fim do estudo, a situação se inverteu: no Reino Unido, em 2023, a taxa foi de 10,2 por 10 mil pessoas-ano entre as mulheres, contra 6,7 entre os homens; na Suécia, em 2021, 9,4 contra 8. Quando se olha para todos os adultos que já tinham o diagnóstico, a proporção continua maior entre os homens, mas a diferença diminuiu: no Reino Unido, a razão entre homens e mulheres caiu de 4,1 em 2010 para 2,2 em 2023.
Os autores citam duas leituras possíveis. Uma é o reconhecimento melhor e mais tardio de mulheres que passaram a vida disfarçando os próprios traços, a chamada camuflagem no autismo. A outra é que outros quadros de saúde mental, parecidos à distância, estejam sendo lidos como autismo em parte dos casos. O estudo não consegue separar uma coisa da outra. Se o tema te interessa, falamos dos sinais de autismo em mulheres em outro texto.
Desigualdade no acesso ao diagnóstico
No Reino Unido, os diagnósticos cresceram mais rápido entre adultos brancos do que entre negros e sul-asiáticos. Na Suécia, cresceram mais entre filhos de pais nascidos no país. Os autores enxergam aí um sinal de desigualdade: o diagnóstico de autismo em adultos pode estar chegando com mais facilidade a alguns grupos do que a outros.
O que mudou na saúde de quem recebe o diagnóstico de autismo?
Mudou bastante. Os adultos diagnosticados com autismo nos anos mais recentes do estudo tinham com mais frequência ansiedade, depressão e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) registrados antes, e com menos frequência epilepsia e deficiência intelectual, do que os diagnosticados em 2010. O exemplo mais claro é a ansiedade.
No Reino Unido, entre os adultos que receberam o primeiro registro de autismo em 2010, 28,7% já tinham ansiedade anotada no prontuário (proporção padronizada por idade). Em 2023, eram 58,3%, uma alta de cerca de 30 pontos percentuais. Nas pessoas de comparação, da mesma idade e do mesmo sexo e sem diagnóstico de autismo registrado, a ansiedade anotada também subiu, de 8,2% para 21,9%, uma alta de cerca de 14 pontos percentuais.

Com a epilepsia, aconteceu o contrário. Em 2010, 10% dos adultos recém-diagnosticados com autismo no Reino Unido já tinham epilepsia registrada; em 2023, eram 4%. Entre as pessoas de comparação, o número ficou praticamente parado (1,3% e 1,2%). Nos dois países, o movimento foi parecido:
| Ficou mais comum no histórico | Ficou menos comum no histórico |
|---|---|
| Ansiedade, depressão e TDAH | Epilepsia |
| Problemas de sono e transtornos alimentares | Deficiência intelectual |
| Quadros ligados ao estresse, dor de cabeça e fadiga crônica | Psicose |
| Prescrições registradas de antidepressivos, melatonina, opioides e gabapentina | Prescrições registradas de sedativos |
Ansiedade e autismo podem morar juntos. Também podem se parecer muito à distância. É por isso que esse dado pesa tanto na hora da avaliação.
E quem tem autismo e TDAH ao mesmo tempo?
O TDAH registrado antes do diagnóstico de autismo também ficou mais comum nos dois países. No consultório, é comum recebermos adultos que já tinham o diagnóstico de TDAH e sentem que parte da história continua sem explicação. Quando as duas condições existem juntas, usamos o termo “AuTDAH” (em inglês, “AuDHD”). Explicamos melhor essa combinação no texto sobre autismo e TDAH em adultos. O artigo não traz números específicos sobre quem tem as duas condições.
O aumento dos diagnósticos de autismo quer dizer que existe mais autismo?
O estudo não responde a essa pergunta, e os próprios autores dizem isso. O que ele mostra é que o aumento dos diagnósticos de autismo veio junto com uma mudança de perfil. Pesquisas populacionais citadas pelos autores, que avaliam pessoas com entrevistas e questionários, encontram o autismo em cerca de 1% da população. Um exemplo é o levantamento inglês de 2007, com 7.461 adultos, que estimou 9,8 casos por mil e não encontrou diferença por idade (Brugha e colegas, 2011). Já os diagnósticos registrados em jovens de 16 a 20 anos chegaram a cerca de 4%. Os métodos e as populações são diferentes, então essa comparação levanta uma pergunta e não prova excesso de diagnóstico.
Daí saem duas explicações possíveis, e o estudo não consegue medir quanto pesa cada uma:
- Reconhecimento melhor: mais informação, menos estigma, mais profissionais atentos ao autismo sem atraso de fala ou de aprendizado e às formas de apresentação nas mulheres.
- Critério mais largo na prática: os autores levantam a hipótese de que a prática diagnóstica tenha se ampliado desde 2010 e que, em alguns casos, sintomas de outras condições, como a ansiedade social, sejam atribuídos ao autismo.
Os dois lados pedem cuidado. Um adulto autista que nunca foi reconhecido pode passar anos sem entender o próprio funcionamento. Um diagnóstico apressado também cobra seu preço, porque pode deixar de lado uma ansiedade ou uma depressão que precisam de tratamento próprio. Se você já ouviu falar em “autismo leve”, vale entender o que são os níveis de suporte do autismo e por que esse termo popular confunde.
Quais são os limites do estudo?
- Os dados vêm de registros de saúde. Um diagnóstico que não foi anotado não aparece, e anotação errada pode acontecer.
- Os sistemas são diferentes: no Reino Unido, prontuários da atenção primária; na Suécia, principalmente atendimentos especializados. Parte das diferenças entre os países pode vir daí.
- Os dados suecos vão só até 2021, e algumas mudanças no Reino Unido apareceram depois disso.
- Não há dados do Brasil. Nosso sistema de saúde e nosso acesso ao diagnóstico são outros, então os números não podem ser transportados para cá.
Quando procurar avaliação para autismo na vida adulta?
Vale procurar avaliação quando as dificuldades com pessoas, com mudanças de planos ou com barulho e luz vêm desde a infância e estão custando caro hoje. Está atrapalhando seu trabalho? Seus relacionamentos? Você chega em casa sem energia para nada depois de um dia comum?
Os autores do estudo fazem um alerta que assinamos embaixo: a avaliação de um adulto precisa olhar a saúde mental inteira, além de procurar o autismo. Eles criticam serviços dedicados apenas ao diagnóstico de autismo e lembram que avaliações remotas podem limitar a qualidade. Na nossa prática, a consulta costuma passar por estes pontos:
- Reconstruir a história desde a infância, de preferência com alguém que conviveu com a pessoa quando criança.
- Investigar ansiedade, depressão, sono e TDAH, que podem existir junto com o autismo ou explicar parte dos sintomas.
- Usar questionários como apoio, sem deixar que eles decidam sozinhos.
- Explicar o resultado com calma, inclusive quando a resposta é “não é autismo” ou “ainda não sabemos”.
Se quiser organizar a suspeita antes da consulta, os testes de triagem para autismo e TDAH do blog ajudam, sem confirmar nem descartar nada. E o nosso guia sobre autismo em adultos descreve os sinais mais comuns. Este texto não substitui uma avaliação individual com um profissional de saúde. Se você se reconheceu aqui, agende uma avaliação com o neurologista Dr. Matheus Trilico.
Perguntas frequentes sobre diagnóstico de autismo em adultos
Por que tantos adultos estão sendo diagnosticados com autismo?
Não existe uma causa única comprovada. O estudo de Sadik e colegas (2026) mostra que o aumento se concentrou em jovens de 16 a 20 anos e em mulheres. Entre as explicações discutidas pelos autores estão mais informação, menos estigma, mais atenção às mulheres que camuflam os traços e uma possível ampliação da prática diagnóstica. A pesquisa descreve o que mudou, mas não prova qual dessas explicações pesa mais.
Autismo pode ser confundido com ansiedade?
Pode, e as duas condições também podem existir juntas. A ansiedade social, por exemplo, pode levar a pessoa a evitar contato e a ensaiar conversas, comportamentos que lembram o autismo. No Reino Unido, entre os adultos com primeiro registro de autismo em 2023, a proporção com ansiedade registrada antes foi de 58,3%. Por isso, a avaliação precisa olhar a história desde a infância, além dos sintomas de hoje.
É comum mulheres receberem diagnóstico de autismo na vida adulta?
É, e ficou mais comum. No estudo, a taxa de novos diagnósticos em mulheres adultas passou a dos homens: em 2023, no Reino Unido, foi de 10,2 por 10 mil pessoas-ano entre as mulheres, contra 6,7 entre os homens. Uma das explicações é a camuflagem, o esforço de imitar o comportamento esperado para não chamar atenção, que pode atrasar a suspeita por anos.
Quem tem TDAH pode ter autismo também?
Pode. A combinação é chamada informalmente de “AuTDAH” ou “AuDHD”. No estudo de 2026, o TDAH registrado antes do diagnóstico de autismo ficou mais comum ao longo dos anos, no Reino Unido e na Suécia. Quem já tem diagnóstico de TDAH e continua sentindo que algo não se encaixa, principalmente nas relações e na sensibilidade a sons e mudanças, pode conversar sobre isso com o médico.
O aumento dos diagnósticos de autismo é uma epidemia?
O estudo não mede isso diretamente. Segundo os autores, pesquisas populacionais mostram a presença de traços autistas estável ao longo do tempo, perto de 1%, enquanto os diagnósticos registrados subiram. Isso sugere uma mudança na forma de reconhecer e registrar o autismo, mais do que uma explosão de casos novos.
Conclusão
Se você recebeu o diagnóstico depois dos 16 anos, ou está pensando em procurar um, talvez tenha se perguntado se o seu caso é “de verdade” ou “de moda”. Essa dúvida merece espaço numa consulta sem pressa, que olhe a sua história inteira. Qual pergunta você gostaria de levar para essa conversa?
O Dr. Matheus Trilico atende adultos com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e TDAH em Curitiba. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Gostou? Então compartilhe o conhecimento!
Referências Bibliográficas
- Sadik A, Lundberg M, Khandaker GM, Pardiñas AF, Lee BK, Madley-Dowd P, Magnusson C, Rai D. Changes in the profile of adults diagnosed as autistic since 2010: population-based studies in the UK and Sweden. BMJ Ment Health. 2026;29(1). PMID 42977525. https://doi.org/10.1136/bmjment-2026-302983. Texto integral: PMC13735358. Registro no PubMed.
- Brugha TS, McManus S, Bankart J, Scott F, Purdon S, Smith J, Bebbington P, Jenkins R, Meltzer H. Epidemiology of autism spectrum disorders in adults in the community in England. Arch Gen Psychiatry. 2011;68(5):459-65. PMID 21536975. https://doi.org/10.1001/archgenpsychiatry.2011.38
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
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