A avaliação neuropsicológica é um exame feito por um psicólogo, de preferência com formação em neuropsicologia, que investiga como funcionam a atenção, a memória, a linguagem, o raciocínio e o comportamento social de uma pessoa. Em adultos, ela costuma ser pedida quando há suspeita de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou dos dois juntos, combinação às vezes chamada de “AuTDAH” (em inglês, “AuDHD”). Quer entender como ela é feita e o que esperar? Então continue lendo!
Principais Tópicos Deste Artigo
O que é a avaliação neuropsicológica?
A avaliação neuropsicológica reúne entrevistas, questionários, testes e observações para descrever o perfil de habilidades cognitivas, emocionais e comportamentais de uma pessoa. Ela mostra quais habilidades estão mais fortes e quais exigem mais esforço, o que vai além de uma nota de inteligência.
Entre as funções que costumam ser avaliadas, estão:
- Atenção: manter o foco, mudar de tarefa, ignorar distrações;
- Memória: guardar e recuperar informações novas;
- Funções executivas: planejar, organizar, controlar impulsos e ser flexível diante de mudanças;
- Linguagem e raciocínio: compreensão, vocabulário e resolução de problemas;
- Cognição social: entender intenções, emoções e regras implícitas das conversas;
- Aspectos emocionais e sensoriais: ansiedade, humor e sensibilidade a sons, luzes ou texturas.
Ao final, a pessoa recebe um relatório (ou laudo) neuropsicológico com os resultados e as recomendações. Esse documento ajuda o médico e a equipe a tomar decisões mais seguras.
Para que serve a avaliação neuropsicológica em adultos?
Em adultos, a avaliação neuropsicológica serve principalmente para ajudar a esclarecer um diagnóstico e para orientar o tratamento. Diagnosticar o autismo na vida adulta é mais difícil do que na infância. Uma revisão de Lai e Baron-Cohen (2015) aponta três motivos: muitas vezes não há um familiar que lembre como a pessoa era quando criança, muitos adultos aprenderam a disfarçar os sinais (a chamada camuflagem no autismo) e outras condições, como ansiedade e depressão, são frequentes.
Por isso, a avaliação costuma ser útil para:
- investigar a suspeita de TEA em adultos;
- investigar a suspeita de TDAH e separar o que é desatenção do TDAH e o que é um jeito autista de prestar atenção;
- diferenciar o TEA de outras condições com sinais parecidos, como ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e alguns transtornos de personalidade, conforme a revisão de Lai e Baron-Cohen (2015);
- mapear pontos fortes e dificuldades para planejar terapias e adaptações no trabalho ou nos estudos.
Autismo e TDAH aparecem juntos com frequência. Uma meta-análise de Lai e colegas (2019), com estudos de pessoas de diferentes idades, estimou que, em média, cerca de 28% das pessoas com TEA também têm diagnóstico de TDAH, com grande variação entre os estudos. Nesses casos de “AuTDAH”, a avaliação ajuda a entender o peso de cada condição.
Como é feita a avaliação neuropsicológica em adultos?
A avaliação neuropsicológica em adultos é feita em algumas sessões, que combinam conversa, questionários e tarefas. O número de encontros varia conforme a pergunta que precisa ser respondida. As etapas mais comuns são estas:
1. Entrevista inicial (anamnese)
O profissional conversa sobre a queixa atual, a história de vida, a escola, o trabalho, os relacionamentos e a saúde. No autismo, a história do desenvolvimento desde a infância pesa muito, porque os sinais precisam estar presentes desde cedo, mesmo que só tenham ficado claros mais tarde.
2. Conversa com um informante
Sempre que possível, um familiar ou alguém que conheça bem a pessoa é ouvido. Fotos, boletins escolares e relatos antigos também ajudam. Quando ninguém pode contar como foi a infância, o profissional precisa de mais cuidado ao juntar as informações.
3. Questionários e testes
A pessoa responde a escalas sobre comportamento e sentimentos (autorrelato) e, às vezes, um familiar responde a versões próprias (heterorrelato). Depois vêm as tarefas que medem atenção, memória, funções executivas e raciocínio. Em alguns casos, são usados instrumentos de observação estruturada próprios para autismo.
4. Sessão de devolutiva e relatório
No fim, o profissional explica os resultados, o perfil encontrado e os encaminhamentos. A devolutiva é o momento de tirar dúvidas e entender o que cada resultado significa na vida real. Depois, o relatório escrito é entregue.
Quais testes podem ser usados na avaliação?
Não existe um único teste que dê o diagnóstico de autismo ou de TDAH. O profissional escolhe os instrumentos de acordo com cada caso. A tabela abaixo resume os tipos mais usados e o que se sabe sobre eles.
| Tipo de instrumento | Exemplos | Para que serve |
|---|---|---|
| Questionários de rastreio | AQ (versões de 50, 28 ou 10 itens), RAADS-R, ASRS-18 | Levantar a suspeita. Não confirmam nem descartam o diagnóstico. |
| Observação estruturada | ADOS-2 (Módulo 4, para adultos que falam fluentemente) | Observar a comunicação e a interação social em situações padronizadas. |
| Entrevista com informante | ADI-R | Reconstruir o desenvolvimento na infância com um familiar. |
| Testes cognitivos | Testes de atenção, memória, funções executivas e inteligência | Mapear pontos fortes e dificuldades. |
| Escalas emocionais | Escalas de ansiedade e humor | Identificar condições que podem se somar ou se confundir com o TEA e o TDAH. |
Os questionários de rastreio erram bastante quando usados sozinhos. Em um estudo de Sizoo e colegas (2015) com 210 adultos encaminhados para avaliação de autismo, quando o questionário apontava autismo, ele acertava em quase 80% dos casos; quando apontava que não era autismo, acertava só em cerca de metade. Os autores concluíram que nenhum dos questionários testados era confiável o bastante para prever o diagnóstico em pessoas encaminhadas a ambulatórios especializados. Em outro estudo de Bemmouna e colegas (2022), com 153 adultos encaminhados para investigar TDAH, só 47% dos que pontuaram alto no questionário AQ tiveram o autismo confirmado depois.
Mesmo os instrumentos mais estruturados precisam ser interpretados por quem tem experiência. Em um estudo de Fusar-Poli e colegas (2017) com 113 adultos com QI de 70 ou mais, o ADOS-2 teve boa precisão, com ressalvas, enquanto o ADI-R pareceu menos confiável nesse grupo. Os autores destacam a importância do treinamento e da experiência do profissional. Kamp-Becker e colegas (2018), ao comparar a pontuação de clínicos para vídeos de aplicações reais do ADOS, observaram que a precisão variou conforme a experiência de quem pontuava, as características de cada caso e a qualidade da aplicação.
A avaliação neuropsicológica dá o diagnóstico de autismo?
Não. Sozinha, a avaliação neuropsicológica não fecha o diagnóstico, e ela também não é obrigatória para chegar a ele. O diagnóstico do TEA e do TDAH é clínico, ou seja, depende da história de vida e da observação feita por profissionais experientes, como o neurologista ou o psiquiatra. Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme essas condições.
Na prática, a avaliação neuropsicológica funciona como uma peça importante de um quebra-cabeça maior. Quando indicada e somada à avaliação médica, ela acrescenta informações ao raciocínio clínico, ajuda a mapear habilidades e dificuldades e pode contribuir para diferenciar condições que se parecem. Você também pode entender melhor os níveis do autismo e como eles influenciam esse apoio.
Quem faz a avaliação e como encontrar um profissional?
A avaliação neuropsicológica é feita por psicólogos, de preferência com especialização em neuropsicologia e experiência com adultos autistas e com TDAH. Essa experiência importa porque, como vimos, a qualidade do resultado depende muito de quem aplica e interpreta os testes.
Antes de escolher, vale perguntar:
- se o profissional atende adultos com suspeita de TEA ou TDAH com frequência;
- quantas sessões costumam ser necessárias e se há conversa com um familiar;
- se haverá sessão de devolutiva e relatório escrito;
- se ele conversa com o médico que acompanha o caso.
Para ajudar nessa busca, o Dr. Matheus Trilico mantém uma rede de profissionais recomendados.
Quando procurar ajuda?
Vale procurar avaliação quando dificuldades antigas de interação social, de atenção, de organização ou de sensibilidade sensorial atrapalham o trabalho, os estudos ou os relacionamentos. Alguns sinais que merecem atenção:
- sensação de sempre ter sido “diferente” e de se cansar muito em situações sociais;
- esforço grande para parecer “normal” em público;
- esquecimentos, atrasos e desorganização que se repetem desde a infância;
- sofrimento com barulho, luz ou mudanças de rotina;
- ansiedade ou depressão que não melhoram como o esperado.
Um bom primeiro passo é conversar com um neurologista ou psiquiatra, que avalia o quadro e indica se a avaliação neuropsicológica é necessária. Este texto é informativo e não substitui uma avaliação médica individual.
Quais são as dúvidas mais comuns sobre avaliação neuropsicológica?
Quanto tempo dura a avaliação neuropsicológica?
Depende da pergunta a ser respondida e do perfil da pessoa. Em geral, são algumas sessões ao longo de semanas, além da devolutiva. Uma investigação de autismo em adulto costuma levar mais tempo do que uma avaliação focada só em memória, por exemplo, porque inclui a história do desenvolvimento e, quando possível, a conversa com um familiar. O profissional deve explicar a previsão de sessões no primeiro encontro.
Preciso da avaliação neuropsicológica para ter o diagnóstico de autismo?
Não necessariamente. O diagnóstico é clínico e pode ser feito pelo neurologista ou psiquiatra a partir da história e da observação. A avaliação neuropsicológica é pedida quando há dúvidas, quando outras condições podem explicar os sinais ou quando é útil conhecer o perfil cognitivo para planejar o tratamento. Nesses casos, ela acrescenta informações que ajudam o médico a decidir.
A avaliação neuropsicológica também investiga TDAH?
Sim. Os testes de atenção, memória e funções executivas ajudam a entender as queixas de desatenção e desorganização. Como autismo e TDAH podem aparecer juntos (“AuTDAH” ou “AuDHD”), uma boa avaliação procura sinais das duas condições e tenta separar o que é próprio de cada uma. Mesmo assim, o diagnóstico de TDAH também é clínico e não depende de um único teste.
Posso fazer um teste online em vez da avaliação?
Os testes online, como o ASRS-18 para TDAH, são úteis para levantar uma suspeita e organizar suas dúvidas antes da consulta. Mas eles não fazem diagnóstico. Como mostraram os estudos de autismo citados acima, questionários usados sozinhos podem dar resultados enganosos, apontando a condição em quem não a tem ou deixando passar quem tem. Se o resultado acender um alerta, leve-o à consulta.
Como encontrar avaliação neuropsicológica pelo plano ou gratuita?
Para saber se a avaliação está coberta e em que condições, consulte o seu plano de saúde com o pedido médico em mãos. Clínicas-escola de cursos de Psicologia também podem oferecer avaliação, em geral com fila de espera. Vale perguntar ainda na unidade de saúde que acompanha você se existe serviço público que a faça na sua região. Em qualquer caso, procure saber se a equipe tem experiência com adultos.
Conclusão
Neste artigo explicamos para você o que é a avaliação neuropsicológica, para que ela serve em adultos, como é feita e quais são os seus limites. Ela não substitui a consulta médica, mas, feita por um profissional experiente, pode contribuir para esclarecer suspeitas de autismo, de TDAH ou de “AuTDAH” e para planejar o cuidado.
Se você se identificou com o que leu, conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Gostou? Então compartilhe o conhecimento!
Referências Bibliográficas
- Lai MC, Baron-Cohen S. Identifying the lost generation of adults with autism spectrum conditions. Lancet Psychiatry. 2015;2(11):1013-27. doi:10.1016/S2215-0366(15)00277-1
- Lai MC, Kassee C, Besney R, et al. Prevalence of co-occurring mental health diagnoses in the autism population: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2019;6(10):819-829. doi:10.1016/S2215-0366(19)30289-5
- Sizoo BB, Horwitz EH, Teunisse JP, et al. Predictive validity of self-report questionnaires in the assessment of autism spectrum disorders in adults. Autism. 2015;19(7):842-9. doi:10.1177/1362361315589869
- Bemmouna D, Weibel S, Kosel M, et al. The utility of the autism-spectrum quotient to screen for autism spectrum disorder in adults with attention deficit/hyperactivity disorder. Psychiatry Res. 2022;312:114580. doi:10.1016/j.psychres.2022.114580
- Fusar-Poli L, Brondino N, Rocchetti M, et al. Diagnosing ASD in Adults Without ID: Accuracy of the ADOS-2 and the ADI-R. J Autism Dev Disord. 2017;47(11):3370-3379. doi:10.1007/s10803-017-3258-2
- Kamp-Becker I, Albertowski K, Becker J, et al. Diagnostic accuracy of the ADOS and ADOS-2 in clinical practice. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2018;27(9):1193-1207. doi:10.1007/s00787-018-1143-y
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
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