Se você pudesse montar o seu tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o que viria primeiro: esquecer menos as coisas no trabalho ou não ter efeito colateral nenhum? Na hora de escolher o tratamento do TDAH, os participantes de 15 estudos de preferência deram mais peso ao controle dos sintomas, à gravidade dos efeitos colaterais e ao apoio social do que ao custo. É o que mostra a revisão de Zhang e colegas, publicada em novembro de 2026 no Journal of Attention Disorders. Nela, os adultos mostraram mais tolerância a efeitos colaterais do que os cuidadores de crianças.
No consultório, ouvimos uma versão disso quase toda semana: “Doutor, o remédio funciona, mas eu queria saber se dá para ser diferente.” Ela resume bem a dúvida de muita gente. Vamos ver o que a pesquisa encontrou e como levar as suas prioridades para a próxima consulta?
Principais Tópicos Deste Artigo
O que mais pesa para quem vai escolher o tratamento do TDAH?
Nos estudos reunidos por Zhang e colegas (2026), três características pesaram mais para quem precisava escolher o tratamento do TDAH: o controle dos sintomas, a gravidade dos efeitos colaterais e o apoio de outras pessoas. O custo financeiro ficou atrás dos resultados do tratamento e desse apoio. A revisão é de Ruihao Zhang e colegas, da China Pharmaceutical University e da Nanjing Medical University (Journal of Attention Disorders, 2026).
Revisão sistemática é um estudo que procura, com regras definidas antes, todas as pesquisas publicadas sobre uma pergunta e junta o que elas encontraram. Zhang e colegas (2026) reuniram 15 estudos que ouviram adultos com TDAH e cuidadores de crianças com TDAH. A maioria olhou para características dos remédios.

Veja como cada achado pode aparecer na vida real. A coluna da direita é a nossa leitura clínica, que a revisão não testou:
| O que a revisão encontrou | Como isso pode aparecer no dia a dia |
|---|---|
| Controle dos sintomas entre o que mais importa | Terminar o relatório no prazo ou conseguir ouvir a conversa até o fim |
| Gravidade dos efeitos colaterais entre o que mais importa | Um efeito leve pode ser aceitável para uns e insuportável para outros |
| Apoio social entre o que mais importa | Ter com quem contar, seja na família, na terapia ou no trabalho |
| Custo com prioridade menor | O preço pesou menos nas escolhas do que os resultados, nos estudos reunidos |
| Adultos toleram mais efeitos colaterais do que cuidadores de crianças | A revisão não explica o motivo; uma hipótese é que quem sente o benefício no próprio corpo aceite algum incômodo em troca |
Como funciona uma pesquisa de preferência?
No experimento de escolha discreta (em inglês, discrete choice experiment), a pessoa vê dois ou mais tratamentos imaginários lado a lado, cada um com uma combinação diferente de características, e escolhe o que prefere. Depois de muitas escolhas, dá para calcular quanto cada característica pesou. Na escala melhor-pior (best-worst scaling), ela aponta, numa lista, o item mais importante e o menos importante.
Os autores procuraram esses estudos no PubMed, na Web of Science e em outras bases, desde o início de cada uma até 1º de junho de 2025. A qualidade foi avaliada com uma ferramenta feita especificamente para estudos de preferência. É um jeito engenhoso de descobrir o que as pessoas valorizam quando não dá para ter tudo ao mesmo tempo.
Adultos com TDAH aceitam mais efeitos colaterais?
Nos estudos reunidos pela revisão de 2026, os adultos com TDAH mostraram mais tolerância a efeitos colaterais do que os cuidadores de crianças, ou seja, aceitaram com mais facilidade opções com algum efeito incômodo. As preferências também mudaram conforme a idade e a fase do tratamento. O resumo publicado não informa de quanto foi essa diferença.
A revisão não explica o porquê dessa diferença. Uma hipótese nossa, que o estudo não testou: o pai que decide pelo filho de oito anos pode ser mais cauteloso, enquanto o adulto sente na própria pele o que muda quando os sintomas melhoram. Quem passou anos ouvindo que era “o distraído da família” e perdendo prazos pode achar que algum incômodo vale a pena; outra pessoa pode achar que não vale.
Tolerar mais também tem limite. Nenhum efeito colateral precisa ser aguentado em silêncio. Se algo está incomodando, conte ao médico que acompanha você; muitas vezes há ajustes possíveis, e só ele pode avaliar quais fazem sentido no seu caso.
E quem tem autismo e TDAH (AuTDAH)?
O resumo da revisão não traz nenhuma análise de pessoas com autismo e TDAH ao mesmo tempo, combinação que alguns chamam de “AuTDAH” ou, na forma internacional, “AuDHD”. Então ainda não dá para dizer se as prioridades delas são diferentes. Na nossa prática, muitas pessoas no espectro descrevem com detalhe o que mudou no corpo depois de começar um tratamento, e essa descrição ajuda a ajustar o plano. Se essa combinação é a sua, leia nosso texto sobre autismo e TDAH em adultos.
Por que suas preferências mudam o tratamento do TDAH?
As preferências do paciente importam porque um tratamento só ajuda se a pessoa conseguir seguir com ele. Os autores da revisão lembram que a adesão à medicação, ou seja, conseguir usar o remédio como combinado ao longo do tempo, continua sendo um desafio importante no TDAH. Por isso, eles defendem estratégias de tratamento centradas no paciente.
Na prática, isso tem nome: decisão compartilhada. O médico traz o que a ciência sabe sobre cada opção; você traz a sua vida, os seus horários e o que você não aceita perder. Uma receita só ajuda de verdade se couber na sua rotina. Antes da consulta, vale anotar:
- os dois ou três sintomas que mais atrapalham hoje (no trabalho, em casa, nos relacionamentos);
- quais efeitos colaterais seriam aceitáveis para você e quais seriam inaceitáveis;
- como é a sua rotina: horários de trabalho, estudo, sono e refeições;
- o que você já tentou antes e como foi;
- quanto você pode gastar e o que o seu plano de saúde cobre;
- com quem você pode contar no dia a dia.
Essa lista vem da prática clínica e não foi testada na revisão. Com ela em mãos, fica mais fácil comparar as opções pelo que importa para você. Se uma das suas dúvidas é se o remédio pode piorar o uso de álcool ou de outras drogas, explicamos o que se sabe em TDAH e dependência química. E se o trabalho é onde o TDAH mais pesa, leia sobre TDAH no trabalho.
Existe tratamento do TDAH em adultos sem remédio?
O tratamento do TDAH em adultos também tem opções sem remédio. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), um tipo de psicoterapia que treina estratégias para organizar a rotina e lidar com pensamentos e emoções, é uma delas. Explicamos o que favorece a aceitação dela em adultos no texto sobre TCC para TDAH.
O ponto fraco da revisão de 2026 está justamente aqui. O foco predominante dos 15 estudos foi nas características dos remédios, e o resumo não detalha o que eles mostraram sobre terapia ou outras abordagens. Os próprios autores pedem mais pesquisas sobre preferências por intervenções comportamentais.
Quais são os limites dessa revisão?
A revisão mostra o que as pessoas disseram preferir em escolhas imaginárias; ela não mede se um tratamento funciona melhor do que outro. Também vale saber que lemos o resumo publicado, porque o texto completo não estava acessível. Os principais limites são estes:
- Preferência declarada pode ser diferente da escolha feita na vida real, com o remédio na mão.
- Os estudos misturam adultos com TDAH e cuidadores de crianças, e o resumo não informa quantos ouviram só adultos.
- O foco predominante foi nos remédios; os autores pedem mais estudos sobre terapias e outras intervenções.
- Os autores pedem estudos de longo prazo e em populações de contextos culturais e econômicos mais variados, e o resumo não informa se algum estudo foi feito no Brasil.
Quando procurar ajuda para rever o tratamento do TDAH?
Vale procurar ajuda para rever o tratamento do TDAH quando ele deixou de caber na sua vida: os sintomas voltaram a atrapalhar, algum efeito colateral incomoda ou você tem pulado doses. Essas situações vêm da prática clínica e merecem ser contadas ao médico que acompanha você, antes de qualquer mudança.
Pense na sua semana. Algum efeito está atrapalhando o seu trabalho ou o seu sono? Os sintomas voltaram a pesar nos seus relacionamentos? Se a resposta for sim, é hora de conversar.
Não pare nem mude a dose por conta própria. Leve a dúvida para quem acompanha você. E se você ainda não tem diagnóstico, os testes de triagem de autismo e TDAH do blog ajudam a organizar a suspeita, sem substituir a avaliação. Este texto é educativo e não substitui a consulta.
Na consulta, revisamos a sua história, os sintomas que mais atrapalham e cada efeito que você percebeu, para decidir juntos o próximo passo. Agende uma consulta para rever o tratamento do TDAH com o Dr. Matheus Trilico.
Perguntas frequentes sobre o tratamento do TDAH
Qual é o melhor remédio para TDAH em adultos?
Nenhum remédio é o melhor para todo adulto com TDAH. A escolha depende dos sintomas, de outras condições de saúde, da rotina e das prioridades de cada pessoa. A revisão de Zhang e colegas (2026) mostra que pacientes e famílias pesam de formas diferentes o controle dos sintomas e os efeitos colaterais. Por isso, a decisão é individual e deve ser feita com o seu médico.
Todo remédio para TDAH dá efeito colateral?
Qualquer remédio pode causar efeitos indesejados, e a intensidade varia de pessoa para pessoa. Na revisão de 2026, a gravidade desses efeitos esteve entre as características que mais pesaram na escolha do tratamento, e os adultos se mostraram mais tolerantes do que os cuidadores de crianças. Se algum efeito incomoda, converse com o médico antes de mudar qualquer coisa por conta própria.
O preço do tratamento do TDAH importa?
O preço do tratamento do TDAH importa, mas nos estudos reunidos pela revisão de 2026 o custo financeiro teve prioridade menor do que os resultados do tratamento e o apoio social. Na vida real, o preço pode decidir se a pessoa consegue continuar o tratamento. Por isso, vale dizer ao médico quanto você pode gastar e o que o seu plano cobre: isso faz parte da escolha.
Posso participar da escolha do meu tratamento do TDAH?
Você pode participar da escolha, e essa participação faz parte de um bom cuidado. A decisão compartilhada junta o que a ciência sabe sobre cada opção com o que você valoriza. Os autores da revisão de 2026 defendem estratégias centradas no paciente justamente porque as preferências mudam com a idade e com a fase do tratamento. Leve suas prioridades anotadas e pergunte o que esperar de cada opção.
Conclusão
Se você tivesse que escrever num papel as três coisas que mais importam no seu tratamento, quais seriam? Para uns, vem primeiro “render no trabalho”; para outros, “dormir bem” (e, para quase todo mundo, não deixar o salário inteiro na farmácia). Escolher o tratamento do TDAH fica bem mais fácil quando esse papel vai junto para a consulta.
Conte nos comentários o que pesa mais para você. E se quiser rever o seu plano com calma, conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Este texto não substitui a avaliação individual.
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Referências Bibliográficas
ZHANG, R.; LI, Y.; ZHAN, M.; TIAN, C.; TAO, T.; CHEN, P. Treatment preferences in attention deficit hyperactivity disorder: a systematic review of discrete choice experiment and best-worst scaling studies. Journal of Attention Disorders, publicado online em 3 nov. 2026. PMID 42978162. DOI: 10.1177/10870547261501381. Resumo no PubMed.
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
CRM 35.805/PR – RQE 24.818