TDAH no trabalho é o conjunto de dificuldades de atenção, organização e controle dos impulsos que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) traz para a rotina profissional, e um estudo finlandês de outubro de 2026 mediu com que frequência ele vem acompanhado de ansiedade, depressão e afastamentos. Publicado no British Journal of Psychiatry, o estudo analisou os prontuários de 2.117 trabalhadores com TDAH e encontrou alguma condição psiquiátrica associada em 80,5% deles. Segundo Tuokko e colaboradores (2026), ansiedade (51,8%) e depressão (43,9%) foram as mais comuns, e as mulheres tiveram afastamentos do trabalho por motivo psiquiátrico com frequência desproporcionalmente maior do que os homens.
O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a atenção, o controle dos impulsos e a organização, e que pode persistir na vida adulta. Neste artigo, vamos te explicar o que o estudo encontrou e o que esses dados mudam para quem tem TDAH no trabalho.
Quer entender melhor? Então continue lendo!
Principais Tópicos Deste Artigo
O que o novo estudo sobre TDAH no trabalho descobriu?
O estudo de Tuokko e colaboradores (British Journal of Psychiatry, 2026) mostrou que trabalhadores com TDAH atendidos na atenção primária da Finlândia carregam uma carga alta de comorbidades psiquiátricas e usam muito os serviços especializados. Entre 2.117 pacientes adultos com diagnóstico clínico de TDAH, 80,5% tinham ao menos uma outra condição psiquiátrica registrada. Os transtornos de ansiedade (51,8%) e a depressão (43,9%) lideraram a lista.
O uso de serviços especializados também foi alto. No subgrupo com dados disponíveis, 87,0% dos pacientes consultaram um psiquiatra e 70,1% consultaram um psicólogo.
Comorbidade é o nome que a medicina dá para duas ou mais condições que aparecem na mesma pessoa. Segundo os próprios autores, as pesquisas anteriores deixaram de lado os trabalhadores atendidos em serviços de saúde ocupacional, e foi justamente esse grupo que o estudo olhou: adultos que estão trabalhando e são atendidos na porta de entrada do sistema.
Os principais números do estudo sobre TDAH no trabalho

| O que foi medido | Resultado |
|---|---|
| Participantes | 2.117 trabalhadores adultos com TDAH (53,8% homens; 46,2% mulheres), atendidos entre 2018 e 2022 |
| Alguma comorbidade psiquiátrica | 80,5% |
| Transtornos de ansiedade | 51,8% |
| Depressão | 43,9% |
| Consultaram psiquiatra / psicólogo | 87,0% / 70,1% (subgrupo de 1.447 pacientes com dados) |
| Afastamento psiquiátrico longo (mais de 30 dias), mulheres em comparação com homens | Razão de risco relativo de 2,75 (intervalo de confiança de 95%: 2,16 a 3,52) |
Fonte: Tuokko et al., British Journal of Psychiatry, 2026 (dados do resumo publicado).
Como o estudo foi feito?
Trata-se de um estudo transversal de registro, ou seja, uma fotografia de um momento, feita a partir de prontuários. Os pesquisadores da Universidade de Helsinque e da rede Terveystalo analisaram 2.117 pacientes com diagnóstico de TDAH (código F90.0 da Classificação Internacional de Doenças, a CID-10) no sistema finlandês de saúde ocupacional entre 2018 e 2022. Em um subgrupo de 1.447 pessoas com dados disponíveis, avaliaram uso de serviços, medicação e períodos de afastamento, usando modelos de regressão multinomial (uma técnica estatística de comparação entre categorias).
Mas o que explica tanta ansiedade e depressão em quem tem TDAH? Continue lendo que vamos explicar a seguir!
TDAH e ansiedade ou depressão: por que andam juntos?
TDAH e ansiedade aparecem juntos com frequência, e uma das explicações propostas na prática clínica é que anos de dificuldade para manter o foco, cumprir prazos e organizar a rotina geram estresse crônico e sensação de fracasso, o que favorece o adoecimento emocional. Essa é uma hipótese, e o estudo finlandês não a testou: ele mediu apenas a frequência das comorbidades. O achado se soma a outros dados recentes. Na descrição dos participantes de um estudo sobre TDAH e cognição na vida tardia (JAMA Psychiatry, 2026), Bauer-Negrini e colaboradores registraram depressão em 32,8% dos adultos com TDAH, contra 7,7% dos demais participantes, e transtorno de ansiedade em 28,6%, contra 6,5%.
Na nossa interpretação clínica, parte dessa sobreposição vem de sintomas que se confundem. A inquietação do TDAH pode ser lida como ansiedade; a dificuldade de iniciar tarefas pode ser lida como desânimo depressivo. Por isso, o diagnóstico de déficit de atenção e hiperatividade no adulto exige uma avaliação que olhe para a história de vida inteira, além da crise do momento.
Quem tem TDAH pode ter depressão?
Sim, e no estudo finlandês a depressão apareceu em 43,9% dos trabalhadores com TDAH. O estudo não diz que o TDAH cause depressão. O que esse número sugere, na nossa interpretação, é que os dois quadros precisam ser investigados juntos. Se você quer entender melhor a relação entre o neurologista e os quadros de ansiedade, veja o texto neurologista trata ansiedade?
Quais são os sinais de TDAH no trabalho?
Os sinais de TDAH no trabalho costumam ser antigos, presentes em vários empregos e em outras áreas da vida. A tabela abaixo organiza o que observar antes de uma consulta. Ela não serve para diagnóstico, apenas para você chegar com observações concretas.
| Situação no trabalho | Como costuma aparecer no TDAH | O que merece atenção extra |
|---|---|---|
| Prazos e entregas | Começar tarde, correr no fim, entregar com erros de detalhe | Piora recente ligada a insônia, tristeza ou crises de ansiedade |
| Reuniões | Perder o fio da conversa, interromper, esquecer combinados | Evitar reuniões por medo ou vergonha |
| Organização | Mesa, e-mails e agenda desorganizados há anos | Deixar de pagar contas e faltar a compromissos importantes |
| Energia | Cansaço mental no fim do dia, sensação de ter feito pouco | Exaustão que não melhora com descanso, choro fácil, afastamentos repetidos |
O hiperfoco, aquela absorção total em uma tarefa, também pode aparecer no trabalho e confundir chefes e colegas. A mesma pessoa que esquece um prazo simples pode passar horas em um projeto que a interessa. Para a família, isso ajuda a entender que a dificuldade tem base neurológica, e vontade não resolve sozinha.
E por que as mulheres apareceram em desvantagem nos afastamentos? Vamos explicar a seguir!
Por que as mulheres com TDAH se afastam mais do trabalho?
No estudo de Tuokko e colaboradores (2026), as mulheres com TDAH tiveram afastamentos do trabalho por motivo psiquiátrico com frequência desproporcionalmente maior do que os homens. A razão de risco relativo foi de 2,08 para afastamentos curtos (1 a 7 dias), 2,03 para afastamentos intermediários (8 a 30 dias) e 2,75 para afastamentos longos (mais de 30 dias). Razão de risco relativo é uma medida que vem do modelo estatístico usado no estudo (regressão multinomial): ela compara mulheres e homens em relação a uma categoria de referência. O valor de 2,75 indica uma associação forte entre sexo feminino e afastamento longo, mas não quer dizer que a probabilidade de afastamento tenha sido três vezes maior em números absolutos.
O tratamento medicamentoso também foi diferente entre os sexos. Os homens receberam com mais frequência apenas psicoestimulantes, uma das classes de medicamentos usadas no TDAH (27,4% contra 18,4%), enquanto as mulheres receberam com mais frequência apenas antidepressivos ou a combinação de antidepressivo com ansiolítico. A medida estatística usada pelos autores (V de Cramer de 0,15) indica uma diferença de tamanho pequeno.
TDAH em mulheres adultas é diferente?
Na nossa prática clínica, o TDAH em mulheres adultas costuma ser reconhecido mais tarde, porque a desatenção chama menos atenção do que a hiperatividade e porque muitas mulheres compensam as dificuldades com esforço extra. O estudo finlandês não explica por que as mulheres se afastaram mais. Os autores observam que as mulheres foram tratadas com mais frequência com medicamentos voltados às comorbidades (ansiedade e depressão) em vez de estimulantes isolados. Elas também tiveram mais afastamentos, mas o resumo não afirma que uma coisa explique a outra. Uma hipótese da nossa prática, que o estudo não testou, é a sobrecarga de papéis, tema que abordamos em maternidade atípica em mães com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e TDAH.
Os autores sugerem que podem ser necessários caminhos clínicos específicos por sexo para preservar a capacidade de trabalho. Na nossa leitura clínica, isso significa perguntar ativamente sobre sintomas de TDAH quando uma mulher chega com ansiedade ou depressão que não melhora, em vez de tratar só a comorbidade.
O que este estudo não diz
Com base no resumo publicado, quatro limites merecem atenção:
- Uma fotografia de um momento. O desenho transversal mostra quantas pessoas tinham cada condição ao mesmo tempo, mas não diz o que veio primeiro nem o que causa o quê.
- Diagnósticos de prontuário. Em estudos de registro como este, os diagnósticos costumam vir de profissionais diferentes, e o resumo não detalha como foram padronizados.
- População finlandesa e empregada. Só entraram pessoas empregadas e atendidas pelo sistema de saúde ocupacional, então quem está fora do mercado de trabalho não foi representado, e o sistema finlandês é diferente do brasileiro.
- Leitura baseada no resumo. No momento da escrita deste artigo, tivemos acesso apenas ao resumo publicado. Detalhes sobre dose, tempo de tratamento e tipo de afastamento não aparecem nele.
Agora que você entendeu os números, veja quando vale buscar ajuda!
Quando procurar ajuda?
Vale procurar um neurologista ou psiquiatra quando as dificuldades de atenção e organização são antigas e atrapalham o trabalho, ou quando uma ansiedade ou depressão não melhora como esperado. A consulta serve para confirmar ou afastar o diagnóstico de TDAH, mapear as comorbidades e montar um plano que olhe para os dois lados. Se a relação entre TDAH no trabalho e saúde mental te preocupa, procure avaliação se você:
- percebe que a desorganização e os atrasos se repetem em vários empregos, inclusive no atual;
- já trata ansiedade ou depressão há tempo e a melhora não chega;
- teve afastamentos do trabalho por motivo emocional, principalmente se foram mais de um;
- ouve de familiares e colegas que você sempre foi assim, desde a escola;
- tem dúvidas sobre o seu tratamento atual (nunca suspenda ou altere medicação por conta própria).
Questionários online ajudam apenas como triagem. O teste para TDAH no adulto e os testes de triagem para TEA e TDAH em adultos são um ponto de partida, mas o diagnóstico só pode ser feito em consulta. Se ficar em dúvida sobre qual especialista procurar, explicamos as diferenças entre neurologista ou psiquiatra.
Agende uma avaliação para TDAH em adultos e entenda o que está por trás do cansaço, da ansiedade e dos atrasos no trabalho. Este texto é informativo e não substitui uma avaliação médica individual. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta.
Ficou com dúvidas? Respondemos as mais comuns a seguir!
Perguntas frequentes sobre TDAH no trabalho
TDAH atrapalha no trabalho?
Pode atrapalhar, principalmente quando não é reconhecido nem tratado. Prazos e reuniões longas exigem as funções que o TDAH afeta: atenção sustentada, planejamento e controle de impulsos. No estudo de Tuokko e colaboradores (2026), a maior parte dos trabalhadores com TDAH também tinha ansiedade ou depressão, o que aumenta o impacto no dia a dia. Com diagnóstico, tratamento e ajustes de rotina, muitas pessoas conseguem trabalhar bem.
TDAH dá direito a afastamento do trabalho?
O afastamento depende da avaliação médica de cada caso. No estudo finlandês, os afastamentos analisados foram os registrados por motivo psiquiátrico; o resumo não detalha quais diagnósticos entraram nessa conta. No Brasil, quem decide sobre afastamento é o médico assistente e, quando necessário, a perícia. O tratamento busca reduzir a necessidade de afastamentos e preservar a capacidade de trabalho.
TDAH causa burnout?
O estudo não avaliou burnout e não permite dizer que a combinação de TDAH, ansiedade e depressão aumente a chance de exaustão no trabalho; o que observamos na prática é que essa combinação costuma pesar. Quem gasta energia extra o dia inteiro para compensar a desatenção chega ao fim do expediente esgotado. Se o cansaço não melhora com descanso e vem acompanhado de desânimo e irritabilidade, isso merece avaliação. Problemas de sono também costumam entrar nessa conta, como explicamos em o que causa insônia.
Qual médico trata TDAH em adultos?
Neurologistas e psiquiatras podem diagnosticar e tratar o TDAH em adultos. O importante é que o profissional tenha experiência com o quadro na vida adulta e investigue as comorbidades, já que no estudo finlandês 80,5% dos pacientes tinham outra condição psiquiátrica registrada. Psicólogos participam do tratamento com terapia e treino de habilidades, mas não prescrevem medicação.
Quem tem TDAH e autismo ao mesmo tempo também tem mais ansiedade?
O resumo publicado não traz dados sobre pessoas com TDAH e Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) ao mesmo tempo, então não dá para responder a partir dele. Na nossa prática, as duas condições aparecem juntas com frequência, e o cuidado precisa considerar as duas. Explicamos essa relação no texto autismo e TDAH em adultos.
Conclusão
Neste artigo explicamos para você o que o novo estudo sobre TDAH no trabalho encontrou. Entre 2.117 trabalhadores finlandeses com TDAH, 80,5% tinham alguma comorbidade psiquiátrica, com ansiedade e depressão na frente, e as mulheres tiveram afastamentos por motivo psiquiátrico com frequência desproporcionalmente maior do que os homens. Mostramos também que o estudo é uma fotografia de um momento, que ele não prova causa e que a leitura se baseou no resumo publicado.
Na nossa interpretação, o recado para quem tem TDAH no trabalho é tratar a ansiedade e a depressão como parte do mesmo cuidado. Se você precisa de um neurologista em Curitiba e região, agende uma avaliação para TDAH em adultos: conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Este conteúdo não substitui a avaliação médica.
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Referências Bibliográficas
- Tuokko M, Ämmälä AJ, Paunio T, Taimela S, Leppämäki S. Psychiatric comorbidity, burden of sickness absence and sex-specific characteristics of working individuals with ADHD treated in primary care in the Finnish occupational health system: cross-sectional register study. Br J Psychiatry. 2026 Oct 7:1-6. Epub ahead of print. PMID: 42841247. DOI: 10.1192/bjp.2026.10794. Disponível no PubMed.
- Bauer-Negrini G, Leffa DT, Ferreira PCL, Bellaver B, Povala G, Medeiros MS, Lussier FZ, Tudorascu DL, Cortese S, Rohde LA, Molina BSG, Pascoal TA. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Late-Life Cognitive Impairment. JAMA Psychiatry. 2026 Oct 7. Epub ahead of print. PMID: 42842281. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2026.3165.
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
CRM 35.805/PR – RQE 24.818