TDAH e calor: o que 6 estudos mostram sobre foco, sono, humor e remédio nos dias quentes

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TDAH e calor: colagem de papel com um sol laranja e uma gota d'água sobre fundo areia
TDAH e calor: o que seis estudos mostram sobre foco, sono, crises emocionais e remédio nos dias quentes, o que a ciência ainda não sabe e 7 cuidados para o verão.
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Imagine esta cena fictícia. Numa tarde quente de janeiro, Júlia, de 34 anos, relê pela quarta vez o mesmo e-mail. Ela tem Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e sente que, no verão, tudo fica mais difícil.

TDAH e calor aparecem juntos em pesquisas recentes: dias muito quentes estão ligados a pior atenção, pior sono e mais crises de saúde mental. Em 2022, Nori-Sarma e colegas analisaram 2,2 milhões de adultos nos Estados Unidos. Nos dias de calor extremo, as idas à emergência por saúde mental foram 8% mais frequentes. Atenção e sono foram estudados em outras populações, sem foco no TDAH.

Neste texto sobre TDAH e calor, reunimos seis estudos sobre foco, sono, humor e remédio nos dias quentes. Também mostramos o que a ciência ainda não sabe e o que pode ajudar no verão.

Quer entender melhor? Então continue lendo!

O que acontece com quem tem TDAH no calor?

Os estudos mostram que o calor forte está ligado a mais dificuldade de atenção, sono pior e mais crises emocionais na população em geral. Nos estudos que encontramos, nenhum comparou ainda pessoas com e sem TDAH para saber se o efeito é maior nelas. Por isso, a ideia de que o TDAH no calor pesa mais é uma hipótese razoável, que ainda precisa ser testada.

Por que a hipótese faz sentido? O calor parece afetar justamente funções que costumam ser mais difíceis no TDAH, como manter o foco e dormir bem. A tabela resume o que as pesquisas citadas neste texto encontraram e por que isso pode importar para quem tem TDAH:

O que o calor afetaO que os estudos encontraramPor que pode importar no TDAH (hipótese)
AtençãoUniversitários sem ar-condicionado (20 de 44) ficaram mais lentos em testes que os colegas com ar, durante uma onda de calor (2018)A dificuldade de atenção é um dos sintomas centrais do TDAH
SonoNoites mais quentes foram ligadas a mais relatos de sono insuficiente em 765 mil pessoas (2017)Problemas de sono são comuns em adultos com TDAH
Crises emocionaisDias de calor extremo tiveram mais idas à emergência por saúde mental (2022 e 2025)Muitos adultos com TDAH têm dificuldade para controlar emoções fortes

Essas ligações foram vistas em grupos e não preveem o que vai acontecer com cada pessoa. Se você ainda não tem diagnóstico, entenda primeiro como o déficit de atenção e hiperatividade no adulto aparece no dia a dia. E o que dizem os estudos, um a um? Continue lendo que vamos explicar a seguir!

O que os estudos mostram sobre TDAH e calor?

Os estudos sobre TDAH e calor mostram mais idas à emergência por saúde mental nos dias muito quentes, inclusive entre jovens com TDAH. Na população em geral, o calor também foi ligado a atenção mais lenta e a sono pior. São estudos observacionais, ou seja, acompanham o que acontece sem fazer um experimento. Eles mostram ligação e deixam a causa em aberto.

TDAH e calor extremo: o que mostram as emergências de adultos?

Um grande estudo americano analisou 3,5 milhões de idas à emergência de 2,2 milhões de adultos com plano de saúde, entre 2010 e 2019. A pesquisa é de Nori-Sarma e colegas, na revista JAMA Psychiatry (2022). Os autores compararam cada pessoa com ela mesma em dias de temperatura diferente.

Nos dias de calor extremo, as idas à emergência por saúde mental foram 8% mais frequentes. A comparação foi com os dias mais frescos da estação quente naquele local. Nesse estudo, calor extremo eram os dias com máxima no percentil 95 ou acima, ou seja, entre os 5% mais quentes da estação quente de cada condado. A base de comparação foi o percentil 1, os dias mais frescos dessa estação. O aumento apareceu em quase todos os grupos de diagnóstico, como mostra o gráfico.

TDAH e calor: gráfico de idas à emergência por saúde mental no calor extremo nos EUA, grupo da infância que inclui TDAH +11%
Aumento nas idas à emergência nos dias de calor extremo, comparados aos dias mais frescos da estação quente, em adultos com plano de saúde nos Estados Unidos (2010 a 2019). Gráfico elaborado pelo blog com dados do texto integral de Nori-Sarma et al., JAMA Psychiatry, 2022.

O TDAH entra no grupo dos transtornos de comportamento que começam na infância. No sistema de códigos usado pelo estudo, esse grupo também reúne o transtorno de conduta e outros transtornos do desenvolvimento. Esse grupo teve a estimativa mais alta, de 11%, mas a margem de erro é larga e se sobrepõe à dos outros grupos. Os próprios autores veem o calor como um estresse geral, que não atinge uma condição só.

Ondas de calor em jovens com TDAH

Um estudo de 2025 olhou só para crianças e adolescentes com TDAH na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Foram 4.404 idas à emergência por depressão ou ideação suicida (pensamentos sobre suicídio), entre 2008 e 2021. Nos dias de onda de calor, o risco de ida à emergência por depressão foi 17% maior no mesmo dia, com margem de erro (intervalo de confiança de 95%) de 1% a 34%. A pesquisa é de Runkle e colegas, na revista PLOS Mental Health.

Na Austrália, He e colegas (Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 2026) analisaram 719.375 internações por saúde mental de pessoas de até 24 anos. As temperaturas altas foram ligadas a mais internações por vários transtornos, entre eles o TDAH. Esses dois estudos não incluíram adultos acima de 24 anos. Ainda não sabemos se o efeito é igual nessa faixa.

Calor e concentração: o que acontece com a atenção e o sono?

Calor e concentração foram medidos em 44 universitários de Boston, nos Estados Unidos, durante uma onda de calor em 2016. No estudo de Cedeño Laurent e colegas (PLOS Medicine, 2018), quem morava sem ar-condicionado ficou mais lento. O tempo de resposta subiu cerca de 13% a mais do que no grupo com ar-condicionado. Os testes avaliavam atenção e cálculo e eram feitos logo ao acordar.

O sono também foi estudado. Na pesquisa de Obradovich e colegas (Science Advances, 2017), com 765 mil pessoas nos Estados Unidos, noites mais quentes foram ligadas a mais relatos de sono insuficiente, principalmente no verão. Pode ser que uma noite ruim pese no foco do dia seguinte de quem tem TDAH, mas isso não foi medido nesse estudo. Saiba mais sobre o que causa insônia.

E o remédio para TDAH no calor, atrapalha ou ajuda? Aqui o resultado de um estudo grande foi diferente do que muitos esperavam. Vamos ver agora!

Usar remédio para TDAH no calor aumenta o risco?

A dúvida tem razão de ser: os estimulantes, classe de remédios mais usada no TDAH, podem aumentar a temperatura do corpo. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, cita o metilfenidato e as anfetaminas na sua orientação sobre calor e medicamentos. Mas os dados de pacientes contam uma história mais complexa.

Em 2024, Zinabu e colegas (Frontiers in Psychiatry) compararam 69.446 pessoas com TDAH, de 6 a 24 anos, com receita de estimulante, a outras 69.446 sem essa receita. Em um ano, cerca de 4 em cada 1.000 pessoas do grupo com estimulante tiveram algum dos diagnósticos escolhidos pelos autores como ligados ao calor. No outro grupo, foram 8 em cada 1.000 (0,43% e 0,77%). Quase todos esses diagnósticos foram de desidratação, sem confirmação de que houve exposição ao calor. Isso não demonstra que o estimulante proteja.

Esse resultado pede cautela, por vários motivos:

  • o estudo não mediu a temperatura, e a desidratação pode ter outras causas, como viroses;
  • a receita não prova que a pessoa tomava o remédio;
  • os grupos podiam ser diferentes na intensidade do TDAH, e o grupo de comparação não tinha receita de estimulante, sem separar quem fazia outro tratamento para o TDAH;
  • ficaram de fora pessoas com outras doenças ou que usavam remédios como antidepressivos e anti-hipertensivos, o que é comum em adultos.

Na prática, não encontramos estudo que testasse parar ou manter o remédio no verão. O próprio CDC lembra que medicamentos não devem ser suspensos de repente, sem um plano. Se você usa remédio para TDAH e trabalha ao sol ou pratica esporte no verão, converse com o seu médico. Jamais ajuste a dose sozinho!

Como lidar com o TDAH no calor?

Para lidar com o TDAH no calor, ajuda proteger o sono, deixar a água à vista e organizar o dia em torno das horas mais frescas. São orientações práticas, que servem para qualquer pessoa. Não encontramos estudos que as testassem em pessoas com TDAH.

7 cuidados para quem tem TDAH no calor

  1. Água à vista. Uma garrafa na mesa e um lembrete no celular ajudam quem esquece de beber água.
  2. Tarefas difíceis no ambiente mais fresco. Escolha o cômodo e o horário menos quentes da sua casa ou do trabalho.
  3. Quarto fresco à noite. Cortinas fechadas durante o dia, ventilação e roupa de cama leve ajudam o sono.
  4. Pausas curtas. Levantar e ir a um lugar mais fresco de tempos em tempos pode trazer conforto, embora o efeito sobre o foco no TDAH não tenha sido testado.
  5. Menos cafeína e álcool à noite. Os dois atrapalham o sono, que o calor já prejudica.
  6. Agenda por escrito. Lembretes no celular dão uma ajuda extra quando a cabeça está cansada.
  7. Remédios longe do calor. Guarde os medicamentos em lugar fresco e seco, longe do sol.

Se o calor atrapalha o seu rendimento, veja também o que mostramos sobre TDAH no trabalho. Rotina, lembretes e ambiente ajudam mais quando são combinados com antecedência.

Quando procurar ajuda?

Procure atendimento de emergência se, no calor, houver confusão, desmaio, vômitos repetidos ou pele muito quente. Ligue para o SAMU (192) e leve a pessoa para um lugar fresco enquanto espera. Diante de tristeza intensa ou pensamentos de se machucar, procure ajuda logo. Se houver perigo imediato, ligue 192 e não deixe a pessoa sozinha. O Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio emocional de graça pelo telefone 188, 24 horas, mas não substitui o atendimento de emergência.

Procure uma avaliação com neurologista ou psiquiatra se a desatenção atrapalha o trabalho, os estudos ou a vida em casa durante o ano todo. O teste de TDAH em adultos ASRS-18 ajuda a organizar a conversa com o médico. O diagnóstico só sai de uma avaliação médica.

Agende uma avaliação para TDAH em adultos com o Dr. Matheus Trilico. Na consulta, o médico ouve a sua história desde a infância e avalia o que mais pode estar pesando, como sono e ansiedade. Este texto não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.

Perguntas frequentes sobre TDAH e calor

O calor piora o TDAH?

O calor pode deixar mais difíceis o foco, o sono e o controle das emoções, que já costumam ser desafios no TDAH. Nos estudos, dias muito quentes foram ligados a mais idas à emergência por saúde mental (Nori-Sarma, 2022, 2,2 milhões de adultos) e a sono pior (Obradovich, 2017, 765 mil pessoas). Nos estudos que encontramos, nenhum comparou ainda pessoas com e sem TDAH para medir se o efeito é maior.

Por que fico sem foco no calor?

Um estudo com 44 universitários encontrou respostas mais lentas durante uma onda de calor. No trabalho de Cedeño Laurent e colegas (2018), quem dormia em quarto sem ar-condicionado ficou mais lento em testes de atenção e cálculo do que os colegas com ar. O sono pior nas noites quentes pode ajudar a explicar. Ainda não se sabe se essa diferença é maior em quem tem TDAH.

Posso tomar remédio para TDAH no calor?

Não encontramos estudo que testasse parar ou manter o remédio para TDAH no verão, e qualquer mudança é decidida com o médico que acompanha você. O CDC cita os estimulantes entre os remédios que podem aumentar a temperatura do corpo. Já no estudo de Zinabu e colegas (2024), jovens com receita de estimulante tiveram menos diagnósticos ligados ao calor, quase todos de desidratação, o que não demonstra proteção pelo remédio. Beber água e evitar esforço forte ao sol continuam valendo.

Quem tem AuTDAH sente mais o calor?

Não encontramos estudos sobre o calor em pessoas com AuTDAH, sigla usada para quem tem autismo e TDAH ao mesmo tempo (em inglês, AuDHD). A busca foi feita no PubMed em outubro de 2026. O DSM-5, manual usado no diagnóstico, inclui entre os sinais do autismo reagir mais ou menos que o esperado às sensações, e cita como exemplo a aparente indiferença à temperatura. Entenda a ligação entre autismo e TDAH em adultos.

O ar-condicionado ajuda na concentração?

Um ambiente mais fresco parece ajudar a atenção nos dias de onda de calor. No estudo de Boston (Cedeño Laurent e colegas, 2018), os quartos com ar-condicionado ficaram em média a 21,4 °C, contra 26,3 °C nos quartos sem. Quem tinha ar-condicionado se saiu melhor nos testes. Quando o aparelho não é uma opção, cortinas fechadas e um banho para refrescar ajudam a aliviar o calor. O ventilador pode ajudar, mas no calor muito forte ele sozinho pode não bastar.

Conclusão

Neste artigo explicamos para você o que seis estudos mostram sobre TDAH e calor: mais crises nos dias muito quentes, atenção mais lenta e sono pior, em associações vistas em populações diferentes. Também mostramos que ainda falta comparar quem tem e quem não tem TDAH, e que o remédio deve ser discutido com o médico. Lembra de Júlia? Água à vista, quarto fresco e tarefas difíceis no lugar mais fresco da casa são um bom começo.

Se você se reconheceu neste texto, uma avaliação pode ajudar. O Dr. Matheus Trilico atende adultos com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e TDAH em Curitiba. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Gostou? Então compartilhe o conhecimento!

Referências Bibliográficas

  1. Nori-Sarma A, Sun S, Sun Y, et al. Association Between Ambient Heat and Risk of Emergency Department Visits for Mental Health Among US Adults, 2010 to 2019. JAMA Psychiatry. 2022;79(4):341-349. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2021.4369
  2. Runkle JD, Reed C, Weidner K, et al. Assessing the impact of heatwaves on emergency visits for major depression and suicidal ideation in youth with attention-deficit/hyperactivity disorder. PLOS Ment Health. 2025;2(10):e0000444. https://doi.org/10.1371/journal.pmen.0000444
  3. He WQ, Dey C, Li C, et al. Heat Exposure and Hospital Admissions for Mental Health Disorders in a Changing Climate. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2026 [publicado on-line antes da versão impressa; PMID 42107835]. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2026.05.001
  4. Cedeño Laurent JG, Williams A, Oulhote Y, et al. Reduced cognitive function during a heat wave among residents of non-air-conditioned buildings: An observational study of young adults in the summer of 2016. PLoS Med. 2018;15(7):e1002605. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1002605
  5. Obradovich N, Migliorini R, Mednick SC, Fowler JH. Nighttime temperature and human sleep loss in a changing climate. Sci Adv. 2017;3(5):e1601555. https://doi.org/10.1126/sciadv.1601555
  6. Zinabu S, Gasmelseed H, Wheaton N, et al. Stimulant medications effects in heat-related illness in ADHD patients: a large database study. Front Psychiatry. 2024;15:1509385. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2024.1509385
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