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TDAH e expectativa de vida: o que uma meta-análise com 16 milhões de pessoas revela sobre risco de morte e tratamento

10 minutos

TDAH e expectativa de vida: uma meta-análise sobre mortalidade, publicada no JAMA Network Open em outubro de 2026, reuniu 19 estudos e quase 16 milhões de pessoas. Segundo Corrigan e colaboradores (2026), quem tem Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) apresentou taxa de morte 71% maior. Os dados mostram associação e não provam causa.

Expectativa de vida é o número médio de anos que um grupo de pessoas tende a viver, calculado a partir das taxas de morte observadas em cada idade. Quando um estudo fala de TDAH e mortalidade, ele fala de médias de grupos, e nunca do destino de uma pessoa específica. O mesmo trabalho associou o remédio para TDAH a uma taxa de morte 25% menor. Neste artigo, vamos te explicar o que a meta-análise encontrou, por que o risco parece maior, o que ela sugere sobre o tratamento do TDAH e quando vale procurar avaliação.

Quer entender melhor? Então continue lendo!

O que a nova meta-análise sobre TDAH e expectativa de vida encontrou?

A meta-análise de Corrigan e colaboradores (JAMA Network Open, 2026) encontrou que pessoas com TDAH tiveram mortalidade maior por todas as causas, por suicídio, por lesões e por causas naturais. A estimativa mais alta foi a do suicídio e a mais baixa, a das causas naturais, como doenças, com intervalos de confiança que se sobrepõem. O achado vale para o conjunto dos estudos, que incluíram crianças, adolescentes e adultos.

Os pesquisadores buscaram em seis bases de dados científicas tudo o que havia sido publicado até 8 de julho de 2025. Eram elegíveis estudos sobre TDAH e mortalidade em que o TDAH fosse definido por critérios diagnósticos, por autoidentificação, por questionários de traços ou por escore de risco poligênico (uma espécie de “nota genética” que soma muitas pequenas variações do DNA ligadas ao TDAH). Dois revisores extraíram os dados de forma independente. Os resultados foram combinados em um modelo estatístico de efeitos aleatórios, ou seja, um modelo que aceita que os estudos sejam diferentes entre si.

A equipe reuniu pesquisadores da Universidade de Liverpool, da University College London (UCL), do King’s College London e da associação ADHD UK. Segundo o texto integral do artigo, disponível no PubMed Central, os 19 estudos eram observacionais, foram publicados entre 2012 e 2025 e vieram dos Estados Unidos, do Canadá, da Suécia, de Taiwan, do Reino Unido, da Finlândia e da Dinamarca. Dos 19, 17 receberam classificação de boa qualidade metodológica e 2, de qualidade razoável; 12 entraram nas contas da meta-análise, e os outros 7 foram descritos em texto.

Os principais números da meta-análise sobre TDAH e expectativa de vida

TDAH e expectativa de vida: razões de riscos de morte de 1,71 (qualquer causa), 1,89 (suicídio) e 0,75 com remédio
Razões de riscos de morte em pessoas com TDAH em comparação com pessoas sem TDAH (por qualquer causa, suicídio, lesões e causas naturais) e, na barra verde, a razão de riscos entre pessoas com TDAH medicadas e não medicadas; associação não prova causa. Gráfico elaborado pelo blog com dados do texto integral de Corrigan et al., JAMA Network Open, 2026.
O que foi medido Resultado (Corrigan et al., 2026)
Estudos incluídos 19 estudos observacionais (12 nas meta-análises), de 7 países
Participantes 15.920.970 pessoas (36,1% mulheres), de todas as idades
Morte por qualquer causa Razão de riscos de 1,71 (faixa compatível com os dados: 1,31 a 2,24)
Suicídio Razão de riscos de 1,89 (1,21 a 2,95)
Lesões acidentais ou intencionais Razão de riscos de 1,55 (1,22 a 2,00)
Causas naturais (doenças) Razão de riscos de 1,27 (1,16 a 1,38)
Uso de medicação para TDAH, entre pessoas com TDAH Razão de riscos de 0,75 para morte por qualquer causa (0,64 a 0,87)

Fonte: texto integral de Corrigan et al., JAMA Network Open, 2026 (PubMed Central). Os valores entre parênteses são intervalos de confiança de 95%, ou seja, a faixa de valores compatíveis com os dados.

Como ler uma razão de riscos (hazard ratio)?

A razão de riscos, chamada em inglês de hazard ratio, compara a velocidade com que as mortes aconteceram em dois grupos ao longo do tempo. Um valor combinado de 1,71 indica que, em média ao longo do acompanhamento dos estudos, a taxa de morte do grupo com TDAH foi 71% maior do que a do grupo de comparação. Esse número fala de frequência relativa entre grupos, e varia de estudo para estudo. Ele não informa quantas pessoas morreram nem quanto tempo alguém vai viver.

Para transformar esse valor em algo concreto, precisamos de um estudo que informe as taxas de cada grupo. No estudo dinamarquês de Dalsgaard e colaboradores (Lancet, 2015), com 1,92 milhão de pessoas, a taxa de morte foi de 5,85 por 10.000 pessoas-ano entre quem tinha TDAH e de 2,21 por 10.000 pessoas-ano entre quem não tinha. Em uma ilustração aproximada (as taxas são por pessoas-ano, acumuladas ao longo do acompanhamento): a cada 10.000 pessoas com TDAH acompanhadas por um ano, cerca de 6 morreram; a cada 10.000 sem TDAH, cerca de 2. Esses números vêm do estudo dinamarquês, e não traduzem a razão de riscos da meta-análise. Nos dois grupos, a grande maioria seguiu viva.

Quais são os limites desta meta-análise?

Com base no texto integral, cinco limites merecem atenção:

  1. Associação sem prova de causa. Os 19 estudos eram observacionais. Eles mostram que TDAH e mortalidade andam juntos, mas não demonstram que um provoca o outro.
  2. Heterogeneidade substancial. Na morte por qualquer causa, a heterogeneidade (medida de quanto os estudos discordam no tamanho do efeito) chegou a 98%, o que torna o número combinado menos preciso. Os autores observam, porém, que todos os estudos mostraram mortalidade maior no grupo com TDAH, ou seja, a discordância está no tamanho da diferença, e não na direção. Na análise de causas naturais, a heterogeneidade foi baixa.
  3. Dado sobre medicação baseado em poucos estudos. O resultado sobre tratamento se apoia em apenas 3 estudos, e os autores alertam para o confundimento por indicação (quem recebe o remédio pode diferir de quem não recebe em acesso à saúde, renda, gravidade e outras condições); por isso, escrevem que o achado não deve ser lido como prova de efeito protetor.
  4. Todas as idades juntas. Com poucos estudos em cada análise, os autores não conseguiram fazer análises confiáveis por subgrupo, como idade ou sexo; os resultados de adultos não aparecem separados dos de crianças e adolescentes.
  5. Ajustes diferentes entre os estudos. A qualidade dos estudos foi avaliada por um único revisor e, embora os autores tenham usado os modelos mais ajustados de cada estudo, os fatores considerados (como o nível socioeconômico) variaram de um trabalho para outro.

Mas, afinal, isso quer dizer que quem tem TDAH vive menos? Continue lendo que vamos explicar a seguir!

Quem tem TDAH vive menos?

Em média, sim, na coorte britânica que estimou isso: adultos com diagnóstico de TDAH tiveram uma redução aparente da expectativa de vida, ligada, segundo os autores, a fatores que podem mudar. A pergunta “quem tem TDAH vive menos?” foi respondida com números pelo estudo britânico de O’Nions e colaboradores (British Journal of Psychiatry, 2025), com 30.039 adultos diagnosticados e 300.390 pessoas pareadas (cada pessoa com TDAH foi comparada a dez semelhantes em idade, sexo e unidade de saúde). A redução aparente na expectativa de vida foi de 6,78 anos nos homens (faixa compatível de 4,50 a 9,11) e de 8,64 anos nas mulheres (6,55 a 10,91). Três autores desse trabalho também assinam a meta-análise de 2026.

Os autores britânicos escrevem que essa redução provavelmente se deve a fatores de risco modificáveis e a necessidades de apoio e tratamento do TDAH não atendidas, incluindo as condições físicas e mentais associadas. Eles também alertam que o resultado vale para adultos com diagnóstico registrado, que, segundo os autores, são cerca de 1 em cada 9 adultos com TDAH. A maioria, que nunca foi diagnosticada, pode ter um quadro diferente.

Por que o risco de morte é maior no TDAH?

A meta-análise de Corrigan e colaboradores (2026) não testou os motivos, mas a distribuição das causas de morte dá pistas. As estimativas mais altas foram as de suicídio (razão de riscos de 1,89) e de lesões, acidentais ou intencionais (1,55). As mortes por doenças tiveram associação menor (1,27). No estudo dinamarquês de Dalsgaard e colaboradores (2015), o excesso de mortes no TDAH veio sobretudo de causas não naturais, especialmente acidentes.

No artigo e no comunicado da Universidade de Liverpool (2026), os pesquisadores apontam como possíveis explicações:

Na nossa interpretação, essa lista traz hipóteses, ainda não testadas pela meta-análise, que o cuidado alcança. Depressão e ansiedade têm tratamento, a impulsividade costuma responder ao tratamento do TDAH e o acesso à saúde depende de políticas e de rede de apoio. O peso das condições de saúde associadas aparece também no texto sobre TDAH no trabalho. E o remédio, muda alguma coisa? Vamos explicar a seguir!

O remédio para TDAH reduz o risco de morte?

Os estudos disponíveis apontam nessa direção, mas ainda sem prova definitiva. Na meta-análise de Corrigan e colaboradores (2026), pessoas com TDAH que usavam medicação tiveram taxa de morte por qualquer causa 25% menor do que pessoas com TDAH sem medicação (razão de riscos de 0,75; faixa compatível de 0,64 a 0,87). Esse resultado vem de apenas 3 estudos, de Taiwan (Chen e colaboradores, 2022), do Quebec, no Canadá (Vasiliadis e colaboradores, 2024), e da Suécia (Li e colaboradores, 2024). Os autores escrevem que o achado não deve ser interpretado como prova de que o remédio protege contra a morte, e a primeira autora o descreve como evidência inicial, que precisa de mais pesquisa.

Um dos três estudos dessa análise é o trabalho sueco de Li e colaboradores (JAMA, 2024), com 148.578 pessoas de 6 a 64 anos recém-diagnosticadas. O risco estimado de morte em dois anos foi de 39,1 a cada 10.000 pessoas que iniciaram o remédio para TDAH em até três meses após o diagnóstico, contra 48,1 a cada 10.000 entre as que não iniciaram (o estudo imitou o desenho de um ensaio clínico com dados de registros). A diferença apareceu sobretudo nas mortes por causas não naturais, como acidentes, intoxicações e suicídio (razão de riscos de 0,75). Nas mortes por doenças, ela não ficou clara (0,86, com faixa que inclui o 1,00, ou seja, sem diferença detectável).

Esses números não autorizam ninguém a começar, trocar ou suspender um remédio por conta própria. Estudos observacionais não conseguem separar por completo o efeito do medicamento do perfil de quem decide usá-lo. A decisão sobre o tratamento do TDAH é individual e deve ser conversada com o médico que acompanha você. No texto sobre o déficit de atenção e hiperatividade no adulto, explicamos como o diagnóstico e o tratamento costumam ser conduzidos.

Agora, veja quando vale buscar ajuda!

Quando procurar ajuda?

Vale procurar um neurologista ou psiquiatra quando a desatenção, a impulsividade e a desorganização atrapalham a vida e nunca foram avaliadas. O mesmo vale quando o TDAH já diagnosticado vem acompanhado de tristeza persistente, uso de álcool ou outras substâncias e acidentes frequentes. A consulta serve para confirmar o diagnóstico, identificar condições associadas e montar um plano de cuidado. Pensando em TDAH e expectativa de vida, procure avaliação se você:

Questionários online ajudam apenas como triagem. O teste de TDAH em adultos (ASRS-18) é um ponto de partida, mas o diagnóstico só pode ser feito em consulta. Se a ansiedade pesa no seu dia a dia, veja se o neurologista trata ansiedade.

Agende uma avaliação para TDAH em adultos e organize o cuidado com a sua saúde física e mental. Este texto é educativo e não substitui a avaliação médica individual. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta.

Perguntas frequentes sobre TDAH e expectativa de vida

TDAH reduz a expectativa de vida em quantos anos?

No estudo britânico que calculou esse número, a redução aparente foi de 6,78 anos nos homens e 8,64 anos nas mulheres com diagnóstico de TDAH. O dado vem de O’Nions e colaboradores (2025), com 30.039 adultos britânicos diagnosticados, e representa uma média de grupo. Os autores levantam a hipótese de que fatores modificáveis e necessidades de tratamento não atendidas contribuam para a diferença. A meta-análise de Corrigan e colaboradores (2026) calculou razões de riscos, sem estimar anos de vida.

TDAH aumenta o risco de suicídio?

Os estudos observacionais mostram que o suicídio foi mais frequente entre pessoas com TDAH, sem provar que o TDAH seja a causa. Em Corrigan e colaboradores (2026), a razão de riscos para a relação entre TDAH e suicídio foi de 1,89, a mais alta entre as causas analisadas. Depressão, impulsividade e uso de substâncias costumam andar junto com o TDAH e podem explicar parte dessa associação. Pensamentos de morte merecem atendimento imediato: o CVV (telefone 188) está disponível 24 horas e, em emergência, o SAMU atende pelo 192.

Por que pessoas com TDAH têm mais acidentes?

A hipótese mais citada envolve desatenção, impulsividade e busca de risco, mas a meta-análise de 2026 não testou esse mecanismo. Em Corrigan e colaboradores (2026), a relação entre TDAH e lesões, acidentais ou intencionais, teve razão de riscos de 1,55. Em Dalsgaard e colaboradores (2015), o excesso de mortes no TDAH veio sobretudo de causas não naturais, especialmente acidentes. Na nossa interpretação, isso reforça o cuidado com direção, álcool e sono em quem tem o diagnóstico.

Tratar o TDAH aumenta a expectativa de vida?

Ainda não há prova direta, mas os dados apontam nessa direção. Em Corrigan e colaboradores (2026), pessoas com TDAH medicadas tiveram taxa de morte 25% menor (razão de riscos de 0,75), com base em 3 estudos. Em Li e colaboradores (2024), iniciar o remédio para TDAH após o diagnóstico se associou a menos mortes em dois anos, principalmente por causas não naturais. Como são estudos observacionais, a decisão sobre o tratamento do TDAH continua individual e deve ser tomada com o seu médico.

Isso vale para quem tem AuTDAH (autismo e TDAH ao mesmo tempo)?

A meta-análise de Corrigan e colaboradores (2026) não traz resultados separados para quem tem AuTDAH, sigla usada para a coexistência de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e TDAH, chamada em inglês de AuDHD. Os autores comentam que, como autismo e TDAH aparecem juntos com frequência, parte da associação entre TDAH e mortalidade pode refletir fatores ligados ao autismo. A mortalidade no autismo, com as fontes e os números, está no texto sobre autismo e expectativa de vida. Se você vive com as duas condições, vale levar as duas à mesma consulta, porque o plano de cuidado precisa considerá-las juntas. Entenda mais em autismo e TDAH em adultos.

Conclusão

Neste artigo explicamos para você o que a nova meta-análise sobre TDAH e expectativa de vida encontrou. Em 19 estudos com quase 16 milhões de pessoas, o TDAH esteve associado a mortalidade maior por todas as causas, com destaque para suicídio e lesões, e o uso de medicação esteve associado a uma taxa de morte 25% menor (Corrigan et al., 2026). Mostramos também que esses são dados de grupos sobre TDAH e mortalidade, que não provam causa, e que a grande maioria das pessoas com TDAH, nos estudos que informaram taxas, seguiu viva durante o acompanhamento.

Na nossa interpretação, a mensagem principal sobre TDAH e expectativa de vida é de cuidado: depressão, impulsividade, acidentes e falta de acesso ao tratamento são as explicações levantadas pelos pesquisadores, ainda não testadas, e todas podem ser trabalhadas. Se você precisa de um neurologista em Curitiba e região, agende uma avaliação para TDAH em adultos: conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Este conteúdo não substitui a avaliação médica.

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Referências Bibliográficas

  1. Corrigan L, Heywood L, Stewart GR, O’Nions E, Shelford H, Stott J, John A. Mortality Among People With Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Netw Open. 2026;9(10):e2639448. PMID: 42895743. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2026.39448. Disponível no PubMed.
  2. O’Nions E, El Baou C, John A, Lewer D, Mandy W, McKechnie DGJ, Petersen I, Stott J. Life expectancy and years of life lost for adults with diagnosed ADHD in the UK: matched cohort study. Br J Psychiatry. 2025;226(5):261-268. PMID: 39844532. DOI: 10.1192/bjp.2024.199.
  3. Li L, Zhu N, Zhang L, Kuja-Halkola R, D’Onofrio BM, Brikell I, Lichtenstein P, Cortese S, Larsson H, Chang Z. ADHD Pharmacotherapy and Mortality in Individuals With ADHD. JAMA. 2024;331(10):850-860. PMID: 38470385. DOI: 10.1001/jama.2024.0851.
  4. Dalsgaard S, Østergaard SD, Leckman JF, Mortensen PB, Pedersen MG. Mortality in children, adolescents, and adults with attention deficit hyperactivity disorder: a nationwide cohort study. Lancet. 2015;385(9983):2190-2196. PMID: 25726514. DOI: 10.1016/S0140-6736(14)61684-6.
  5. University of Liverpool. ADHD linked to higher mortality but medication may help. News, 19 out. 2026. Disponível em: news.liverpool.ac.uk.
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