Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e demência apareceram associados em um estudo publicado na JAMA Psychiatry em outubro de 2026. Segundo Bauer-Negrini e colaboradores (2026), entre 187.341 pessoas com 50 anos ou mais, 6,7% das que tinham TDAH desenvolveram comprometimento cognitivo leve ou demência, contra 3,4% das demais. O estudo mostra associação e não prova causa.
O comprometimento cognitivo leve (CCL) é uma queda de memória, atenção ou outras funções mentais que vai além do esperado para a idade, sem tirar a independência no dia a dia. Neste artigo, vamos te explicar o que o estudo sobre TDAH e demência encontrou, o que ele ainda não consegue responder e quando vale procurar uma avaliação.
Quer entender melhor? Então continue lendo!
Principais Tópicos Deste Artigo
O que o novo estudo sobre TDAH e demência descobriu?
O estudo de Bauer-Negrini e colaboradores (JAMA Psychiatry, 2026) encontrou que adultos com TDAH tiveram risco maior de comprometimento cognitivo leve ou demência. No modelo ajustado inicial, o risco foi mais de 4 vezes maior. Esse valor diminuiu quando os pesquisadores consideraram outras doenças, escolaridade e uso de serviços de saúde, mas a associação continuou presente.
A pesquisa usou dados do programa americano All of Us, com prontuários eletrônicos e informações genéticas das mesmas pessoas. O acompanhamento foi de cerca de 10 anos, em média. A equipe reuniu pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, da Universidade de Southampton e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
O estudo mediu o TDAH de duas formas nas mesmas pessoas. A primeira foi o diagnóstico registrado no prontuário. A segunda foi o escore de risco poligênico, ou seja, uma medida que soma muitas pequenas variações genéticas ligadas ao TDAH. Estudos anteriores levantavam dúvidas sobre como o TDAH é registrado em prontuários, e a medida genética ajuda a testar o achado por outro caminho.
Os principais números do estudo sobre TDAH e demência

| O que foi medido | Resultado |
|---|---|
| Participantes | 187.341 adultos com 50 anos ou mais (idade média de 56 anos; 57% mulheres) |
| Pessoas com diagnóstico de TDAH | 3.026 (1,6%) |
| CCL ou demência entre quem tinha TDAH | 203 pessoas (6,7%) |
| CCL ou demência entre quem não tinha TDAH | 6.259 pessoas (3,4%) |
| Razão de riscos (hazard ratio) no modelo ajustado inicial | 4,60 (diminuiu com ajustes adicionais) |
| Escore genético: quintil mais alto x quintil mais baixo | Risco cerca de 35% maior (hazard ratio de 1,35) |
Fonte: Bauer-Negrini et al., JAMA Psychiatry, 2026.
O que acontece com quem tem TDAH e desenvolve comprometimento cognitivo?
Entre as pessoas que desenvolveram CCL ou demência, ter também TDAH esteve associado a desfechos piores, segundo Bauer-Negrini e colaboradores (2026). Os números abaixo são razões de chances, ou seja, comparações da chance de cada desfecho entre quem tinha e quem não tinha TDAH:
- saúde mental insatisfatória: razão de chances de 1,69;
- pior qualidade de vida: razão de chances de 1,66;
- baixa satisfação social: razão de chances de 2,39;
- uso de serviços de saúde cerca de 20% maior.
Para os autores, pessoas com TDAH que desenvolvem comprometimento cognitivo precisam de acompanhamento direcionado e cuidado integrado. Mas o que esses números significam para quem tem TDAH hoje? Continue lendo que vamos explicar a seguir!
Ter TDAH significa que vou ter demência?
Ter TDAH não significa que a pessoa vai desenvolver demência. No estudo de Bauer-Negrini e colaboradores (2026), 6,7% das pessoas com TDAH desenvolveram CCL ou demência durante o acompanhamento. Isso quer dizer que mais de 93% delas não desenvolveram esses quadros no período estudado.
O risco relativo compara grupos, enquanto o risco absoluto mostra quantas pessoas de fato desenvolveram o quadro. Por isso, quando falamos de TDAH e demência, um número como “4 vezes maior” precisa ser lido junto com os 6,7%. Nenhum dos dois prevê o que vai acontecer com uma pessoa específica.
Quais são os limites deste estudo sobre TDAH e demência?
Com base no resumo publicado, quatro limites merecem atenção:
- Associação sem prova de causa. O desenho observacional mostra que os dois fatores andam juntos, mas não demonstra que um provoca o outro.
- Diagnóstico vindo do prontuário. A medida genética reforça o achado, mas o diagnóstico de TDAH continua dependendo do que foi registrado no atendimento.
- Amostra dos Estados Unidos. Os resultados vêm de participantes americanos e podem não se aplicar da mesma forma a outras populações.
- Leitura baseada no resumo. No momento da escrita deste artigo, tivemos acesso ao resumo publicado, e não ao texto completo. Informações sobre tratamento não aparecem nele.
Outros estudos já tinham observado a relação entre TDAH e demência?
Um estudo israelense publicado na JAMA Network Open em 2023 também encontrou associação entre TDAH e demência em adultos. Levine e colaboradores (2023) acompanharam 109.218 pessoas nascidas entre 1933 e 1952. A demência ocorreu em 13,2% das pessoas com TDAH no adulto e em 7,0% das demais, com hazard ratio ajustado de 2,77.
No estudo de Levine e colaboradores (2023), não houve aumento claro do risco entre quem recebeu medicação psicoestimulante, ou seja, a classe de remédios estimulantes usada no TDAH. Por ser observacional, esse dado não permite concluir que a medicação protege contra a demência. Mais pesquisas são necessárias para responder essa pergunta.
E como saber se um esquecimento tem a ver com o TDAH ou com outra coisa? Vamos explicar a seguir!
TDAH ou demência: como diferenciar o esquecimento?
O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento, por isso suas dificuldades costumam acompanhar a pessoa desde cedo. O comprometimento cognitivo, por sua vez, representa uma mudança em relação ao funcionamento anterior. As duas situações podem coexistir na mesma pessoa, e só uma avaliação médica consegue separá-las.
Qual a diferença entre TDAH, comprometimento cognitivo leve e demência?
No TDAH, distração e desorganização tendem a fazer parte da história de vida; no CCL, há uma queda recente que ainda preserva a independência; na demência, essa queda passa a interferir nas atividades do cotidiano. Em outro texto do blog, explicamos por que muitos preferem hoje o termo transtornos neurocognitivos.
TDAH na maturidade pode ser confundido com demência?
Na nossa interpretação clínica, sim, essa confusão pode acontecer quando o TDAH nunca foi diagnosticado. Uma pessoa que sempre se distraiu pode notar mais esses esquecimentos com o aumento das demandas da vida. Por isso, quando se suspeita de TDAH em idosos, a história desde a juventude é uma das primeiras coisas que o neurologista investiga.
| Aspecto | Costuma acompanhar o TDAH | Merece investigar declínio cognitivo |
|---|---|---|
| Quando começou | Dificuldades presentes desde a infância ou a juventude | Mudança recente em quem antes funcionava bem |
| Evolução | Padrão relativamente estável ao longo dos anos | Piora progressiva percebida por você ou pela família |
| Tipo de queixa | Distração, desorganização, perder objetos, procrastinar | Esquecer conversas recentes, se perder em lugares conhecidos |
| Impacto | Dificuldade antiga em manter rotinas | Perda de autonomia em tarefas antes feitas sem ajuda |
Esta tabela serve apenas para organizar observações antes da consulta; o diagnóstico depende de avaliação médica. O texto sobre lapsos de memória e quando procurar um neurologista traz mais orientações. Para entender o quadro na vida adulta, leia sobre o déficit de atenção e hiperatividade no adulto.
Agora que você entendeu as diferenças, veja quando vale buscar ajuda!
Quando procurar ajuda?
Vale procurar um neurologista quando houver mudança recente na memória ou na atenção, ou quando o TDAH nunca foi avaliado e atrapalha a vida. A consulta serve para entender o que está acontecendo, investigar outras causas e definir um plano de acompanhamento. Se a relação entre TDAH e demência te preocupa, procure avaliação se você:
- percebe que esquece mais do que antes e que isso está piorando;
- recebe comentários da família sobre mudanças na memória ou no comportamento;
- suspeita de TDAH desde sempre, mas nunca passou por uma avaliação;
- já tem diagnóstico de TDAH e quer acompanhar a saúde do cérebro com o passar dos anos;
- tem dúvidas sobre o seu tratamento atual (nunca suspenda ou altere medicação por conta própria).
Questionários online podem ajudar apenas como triagem. Os testes de triagem para TEA e TDAH em adultos são um ponto de partida, mas o diagnóstico só pode ser feito em consulta. Se ficar em dúvida sobre qual especialista procurar, explicamos as diferenças entre neurologista ou psiquiatra.
Agende uma avaliação e entenda o que está por trás das mudanças na sua memória e na sua atenção. Este texto é informativo e não substitui uma avaliação médica individual. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta.
Perguntas frequentes sobre TDAH e demência
TDAH aumenta o risco de demência?
Estudos observacionais mostram que o TDAH está associado a maior risco, sem provar que ele cause demência. Em Bauer-Negrini e colaboradores (2026), 6,7% das pessoas com TDAH desenvolveram CCL ou demência, contra 3,4% das demais. Em Levine e colaboradores (2023), a demência ocorreu em 13,2% das pessoas com TDAH no adulto e em 7,0% das demais. Os dois estudos usaram desfechos e ajustes diferentes.
TDAH pode virar Alzheimer?
O TDAH e a doença de Alzheimer são condições diferentes, e uma não se transforma na outra. A dúvida sobre TDAH e Alzheimer é comum, mas a relação estudada até agora é de associação. O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento; a doença de Alzheimer é uma das causas de demência. O resumo do estudo de 2026 avaliou CCL e demência de forma geral, sem informar o tipo de demência. Para saber mais, veja como é feito o diagnóstico da doença de Alzheimer.
O remédio para TDAH protege contra demência?
Ainda não sabemos. Em Levine e colaboradores (2023), não houve aumento claro do risco de demência entre quem usou psicoestimulantes, mas esse tipo de estudo não prova efeito protetor. O resumo do estudo de 2026 não traz dados sobre tratamento. Qualquer decisão sobre medicação deve ser individual, tomada junto com o seu médico.
Quem tem TDAH vai ter demência?
A maioria das pessoas com TDAH não desenvolveu demência nos estudos disponíveis. Em Bauer-Negrini e colaboradores (2026), mais de 93% das pessoas com TDAH não tiveram CCL ou demência no período acompanhado. O resumo não traz dados sobre quem tem TDAH e Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) ao mesmo tempo, tema que abordamos em autismo e TDAH em adultos.
Esquecimento no TDAH é sinal de demência?
Não necessariamente. Distração e esquecimentos do dia a dia fazem parte do TDAH e costumam estar presentes há muitos anos. O que merece atenção é a mudança: uma piora recente e progressiva, percebida por você ou pela família, deve ser avaliada. Uma avaliação neurológica ajuda a diferenciar os quadros e a definir os próximos passos.
Conclusão
Neste artigo explicamos para você o que o novo estudo sobre TDAH e demência encontrou. Entre 187.341 adultos acompanhados por cerca de 10 anos em média, o TDAH esteve associado a maior risco de CCL ou demência, tanto pelo diagnóstico quanto pela carga genética. Mostramos também que a maioria das pessoas com TDAH não desenvolveu esses quadros e que o estudo não prova causa.
Na nossa interpretação, o achado sobre TDAH e demência reforça o valor de investigar mudanças recentes na memória e de acompanhar de perto quem tem TDAH e queixas cognitivas. Ainda não há estudos mostrando que alguma medida específica reduza esse risco. Se você precisa de um neurologista em Curitiba e região, agende uma avaliação para entender melhor sua memória e sua atenção: conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Este conteúdo não substitui a avaliação médica.
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Referências Bibliográficas
- Bauer-Negrini G, Leffa DT, Ferreira PCL, Bellaver B, Povala G, Medeiros MS, Lussier FZ, Tudorascu DL, Cortese S, Rohde LA, Molina BSG, Pascoal TA. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Late-Life Cognitive Impairment. JAMA Psychiatry. 2026 Oct 7. Epub ahead of print. PMID: 42842281. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2026.3165. Disponível no PubMed.
- Levine SZ, Rotstein A, Kodesh A, Sandin S, Lee BK, Weinstein G, Schnaider Beeri M, Reichenberg A. Adult Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and the Risk of Dementia. JAMA Netw Open. 2023;6(10):e2338088. PMID: 37847497. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2023.38088. Disponível no PubMed.
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
CRM 35.805/PR – RQE 24.818