Autismo e sexualidade: desejo, toque e intimidade em adultos autistas

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Autismo e sexualidade: casal adulto sentado junto no sofá, ela apoiada no ombro dele, em clima tranquilo
Autismo e sexualidade: o que 7 estudos mostram sobre desejo, toque e segurança em adultos autistas, e dicas simples para o casal. Leia e compartilhe!
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Imagine esta cena fictícia. Marina tem 34 anos, é autista e gosta muito do namorado. Mesmo assim, alguns abraços longos a deixam tensa, e o perfume forte dele às vezes atrapalha o clima. Ela tem medo de que ele ache que é falta de desejo e, por isso, prefere não tocar no assunto.

Autismo e sexualidade combinam, sim. A maioria dos adultos autistas tem interesse por vida sexual, mas pode viver o desejo, o toque e a intimidade de um jeito próprio. É o que reafirma um estudo de 2021 com 2.386 adolescentes e adultos, dos quais 1.183 autistas. O mesmo estudo encontrou mais diversidade de orientação sexual entre as pessoas autistas.

Neste texto sobre autismo e sexualidade, mostramos o que as pesquisas descobriram sobre desejo, toque, orientação sexual e segurança. Também mostramos o que pode ajudar casais como Marina e o namorado.

Quer entender melhor? Então continue lendo!

Pessoa autista tem desejo sexual?

Sim, muitas pessoas autistas têm desejo sexual e vontade de ter um relacionamento, como qualquer outro adulto. O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento. Ou seja, faz parte do jeito como o cérebro se formou desde a infância. Ele muda a forma de se comunicar e de sentir o mundo. Mas, por si só, não tira o interesse por amor e intimidade.

Por muito tempo, existiu a ideia de que pessoas autistas seriam “sem interesse” por sexo, ou como eternas crianças. Uma revisão de 2013 que reuniu 55 publicações concluiu que o desenvolvimento sexual faz parte da vida das pessoas autistas, como de qualquer pessoa. O trabalho é de Dewinter e colegas, no Journal of Clinical Nursing.

Isso não quer dizer que todos sintam a mesma coisa. Há pessoas autistas com muito desejo, outras com pouco e outras que se identificam como assexuais, isto é, sem atração sexual. Weir e colegas (2021) tratam a assexualidade como uma das orientações sexuais, e ela, por si só, não é doença. Já a falta de desejo que aparece de repente, ou que causa sofrimento, merece conversa com o médico. Para entender como o autismo aparece na vida adulta, leia sobre autismo em adultos.

Mas, se o desejo existe, por que a intimidade às vezes fica difícil? Continue lendo que vamos explicar a seguir!

O que os estudos dizem sobre autismo e sexualidade?

Os estudos sobre autismo e sexualidade mostram que muitos adultos autistas querem intimidade. Mas eles relatam mais desafios ligados aos sentidos, à comunicação e à segurança. A maior parte das pesquisas usa questionários on-line e grupos que não representam todo o espectro. Por isso, os resultados indicam tendências, que podem variar de pessoa para pessoa.

O que mostrou o maior estudo sobre o tema?

Segundo os autores, este era o maior estudo sobre a vida sexual de pessoas autistas até 2021. O trabalho de Weir, Allison e Baron-Cohen (Autism Research, 2021) ouviu 2.386 pessoas de 16 a 90 anos, das quais 1.183 eram autistas. Todas responderam a um questionário on-line.

Os resultados principais foram:

  • A maioria tem interesse e vida sexual: os autores afirmam que a maior parte dos adultos autistas se interessa por relações sexuais e tem atividade sexual.
  • Menos relatos de vida sexual ativa: mesmo assim, uma parcela menor das pessoas autistas disse ter atividade sexual, em comparação com as não autistas.
  • Mais diversidade: as pessoas autistas se declararam assexuais ou com outra orientação com mais frequência.
  • Sem diferença em dois pontos: a idade da primeira relação e as infecções sexualmente transmissíveis foram parecidas nos dois grupos.

Para os autores, a educação sexual e os exames de saúde sexual precisam incluir as pessoas autistas. Ou seja, esse tema também cabe na consulta.

Autismo e sexualidade: a orientação sexual é mais diversa?

Sim, os estudos citados aqui encontraram mais pessoas não heterossexuais entre adultos autistas. Em um estudo de George e Stokes (Autism Research, 2018), 309 pessoas autistas e 310 não autistas de vários países responderam pela internet. Entre as autistas, 69,7% se declararam não heterossexuais. No grupo não autista, foram 30,3%.

Esses números se referem apenas a quem respondeu ao questionário on-line. Mesmo assim, eles mostram por que a conversa sobre sexualidade precisa ser aberta e sem julgamento.

Por que o toque pode ser difícil para algumas pessoas autistas?

Porque muitas pessoas autistas sentem os estímulos de forma diferente. Um toque leve pode incomodar, um cheiro pode parecer forte demais e um barulho pode tirar a concentração. Isso se chama diferença sensorial. Ela pode ir para os dois lados: algumas pessoas sentem demais, e outras buscam sensações mais intensas.

Voltando à cena do começo: o incômodo de Marina pode ter mais a ver com os sentidos do que com falta de amor. Quando o casal entende isso, a recusa de um toque deixa de parecer rejeição.

O que contam as próprias pessoas autistas

Uma pesquisa leu relatos de mais de 120 pessoas autistas sobre sentidos, sexualidade e relacionamentos. Os textos vieram de livros, fóruns e de uma pergunta on-line. O estudo é de Gray e colegas (Autism in Adulthood, 2021).

Os relatos mostraram os dois lados dos sentidos:

  • algumas pessoas descreveram confusão, sofrimento ou frustração com sons, cheiros, imagens e texturas do encontro íntimo, mesmo querendo participar;
  • outras evitavam o sexo por causa dessas sensações;
  • algumas buscavam sensações mais intensas, e outras gostavam da intimidade porque ela as acalmava;
  • conversar com o parceiro sobre o que incomoda apareceu como uma das estratégias usadas.

A intimidade física é importante para pessoas autistas?

Para a maioria, sim, mas nem sempre do mesmo jeito. Sala e colegas, pesquisadores australianos, ouviram participantes de vários países em um estudo publicado on-line em 2023. Nele, cerca de 70% dos 31 adultos autistas disseram que a intimidade física é importante. Entre os 26 não autistas, todos disseram o mesmo.

Autismo e sexualidade: cerca de 70% de 31 adultos autistas e 100% de 26 não autistas valorizam a intimidade física
Valores arredondados pelos autores. Estudo pequeno, com voluntários que responderam pela internet: não vale para todas as pessoas autistas. Gráfico do blog com dados do texto integral de Sala et al., Journal of Autism and Developmental Disorders, publicado on-line em 2023 (edição de 2024).

Muitos participantes, autistas ou não, citaram abraços, toque, ficar perto e dormir na mesma cama como fontes de segurança no relacionamento. Algumas pessoas autistas contaram que se sentem “esgotadas de toque” ao fim do dia, o que diminui a vontade de contato físico. Para elas, ter clareza na conversa e algum controle sobre o toque ajudou a se sentir à vontade.

Um cuidado na leitura: foi um grupo pequeno, a maioria mulheres, que escolheu participar. Os próprios autores lembram que nem toda pessoa autista tem essas dificuldades sensoriais. E a segurança? Vamos ver agora!

Mulheres autistas correm mais riscos na vida sexual?

Um estudo encontrou mais experiências sexuais indesejadas entre mulheres autistas do que entre homens autistas, e esse alerta merece atenção. O trabalho de Pecora e colegas (2019) comparou 135 mulheres autistas, 96 homens autistas e 161 mulheres não autistas.

As mulheres autistas relataram menos interesse sexual que os homens autistas, mas mais experiências sexuais. Elas também relataram com mais frequência relações das quais se arrependeram, contatos que não queriam e investidas sexuais indesejadas. O estudo também encontrou diferenças entre mulheres autistas e não autistas. Para os autores, essa diferença entre interesse e experiências pode deixar essas mulheres mais expostas a situações negativas.

A responsabilidade por qualquer abuso é sempre de quem abusa. Informação clara sobre consentimento, limites e sinais de uma relação abusiva pode ajudar a reconhecer situações de risco. Se isso aconteceu com você, veja onde buscar ajuda em “Quando procurar ajuda”, mais abaixo. Para entender como o autismo aparece no gênero feminino, leia sobre os sinais de autismo em mulheres.

Como viver a sexualidade no autismo com mais tranquilidade?

Na sexualidade no autismo, conversar com clareza e respeitar os limites de cada um pode ajudar bastante. Em outro estudo de Sala e colegas (2020), os participantes contaram o que favorecia a intimidade: comunicação, partilha, respeito, segurança e cuidado com a relação. Isso valeu para pessoas autistas e não autistas.

Os participantes autistas daquele estudo contaram mais incerteza sobre como funcionam os relacionamentos e sobre a comunicação. Por isso, pode valer a pena dizer as coisas de forma direta, em vez de esperar que o outro adivinhe.

Dicas para lidar com autismo e sexualidade no dia a dia

As sugestões abaixo se inspiram nos relatos desses estudos. Elas ainda não foram testadas em pesquisas com casais autistas:

  1. Falar do que é bom e do que incomoda. Marina pode dizer ao namorado que prefere abraços curtos e firmes e pedir um perfume mais suave.
  2. Combinar um sinal de pausa. Uma palavra ou gesto para “preciso parar um pouco” pode evitar desconforto.
  3. Cuidar do ambiente. Luz baixa, menos barulho e tecidos confortáveis podem ajudar.
  4. Valorizar outros tipos de carinho. Ficar abraçado, dormir junto ou dar as mãos também são formas de intimidade.
  5. Escolher a hora certa. Depois de um dia cheio de estímulos, pode ser melhor descansar antes.
  6. Buscar informação de qualidade. Informação clara sobre corpo, consentimento e limites pode ajudar a entender o que você sente e o que aceita.

Se o autismo e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) aparecem juntos no casal, os desafios podem ser diferentes. Explicamos isso no texto sobre TDAH e autismo no relacionamento.

Quando procurar ajuda?

Procure ajuda quando a vida sexual causa sofrimento, quando o casal não consegue conversar sobre o tema ou quando existe abuso. Um médico que conheça o autismo em adultos pode avaliar o que está acontecendo e indicar outros profissionais, como psicólogo ou terapeuta sexual. Dor durante a relação deve ser avaliada por ginecologista ou urologista. Na dúvida sobre qual especialista procurar, veja o texto neurologista ou psiquiatra: qual procurar.

Desconfia que é autista? Os testes de triagem para TEA e TDAH em adultos do blog ajudam a organizar a conversa com o médico. Eles não dão diagnóstico.

Em situação de violência, procure ajuda logo. Em perigo imediato, ligue 190 (Polícia Militar). Depois de uma violência sexual, procure um serviço de saúde o quanto antes: o atendimento no SUS é garantido pela Lei 12.845/2013. Mulheres podem ligar para o Ligue 180, gratuito e 24 horas. O Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas com deficiência, e a Lei 12.764/2012 inclui as pessoas autistas nesse grupo.

Agende uma avaliação para TEA em adultos com o Dr. Matheus Trilico. Na consulta, o médico ouve a sua história desde a infância, com calma e sem julgamento.

Este texto não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.

Perguntas frequentes sobre autismo e sexualidade

Todo autista é assexual?

Não, a maioria dos adultos autistas tem interesse sexual. No estudo de Weir e colegas (2021), com 1.183 pessoas autistas, a maior parte relatou interesse e atividade sexual. A assexualidade, porém, aparece com mais frequência entre pessoas autistas do que entre não autistas. Ela é reconhecida como orientação sexual e, por si só, não é doença. Já a perda de desejo que causa sofrimento merece conversa com o médico.

Pessoa autista sente prazer no sexo?

Sim, muitas pessoas autistas sentem prazer e gostam da intimidade. Para algumas, porém, certos toques, cheiros ou sons podem incomodar, por causa das diferenças sensoriais. Nos relatos reunidos por Gray e colegas (2021), houve quem achasse a intimidade calmante e quem buscasse sensações mais intensas. Conversar com o parceiro sobre o que é agradável pode fazer diferença.

Por que meu parceiro autista evita abraços ou toques?

Em parte dos casos, o motivo está nos sentidos. Algumas pessoas autistas sentem o toque com mais intensidade. Outras ficam “esgotadas de toque” depois de um dia cheio, como contaram participantes do estudo de Sala e colegas (2023). Cansaço, conflitos ou outras questões também podem pesar. Perguntar com calma que tipo de toque é bom, e em que momento, ajuda o casal a encontrar um jeito confortável de ficar perto.

Pessoas autistas têm orientação sexual mais diversa?

Os estudos citados aqui mostram mais diversidade de orientação sexual entre pessoas autistas. No estudo de George e Stokes (2018), 69,7% das pessoas autistas que responderam se declararam não heterossexuais, contra 30,3% das não autistas. Esses números se referem a quem respondeu a um questionário on-line. Ainda não se sabe bem o motivo. O atendimento precisa ser respeitoso e sem julgamento.

Educação sexual ajuda adultos autistas?

Os pesquisadores defendem que a educação sexual seja prioridade também para pessoas autistas. Weir e colegas (2021) colocam a educação sexual e os exames de saúde sexual como prioridades. Sala e colegas (2023), citando outros trabalhos, lembram que muitas pessoas autistas recebem informação insuficiente. Eles sugerem atenção a comunicação, relações saudáveis, consentimento e sinais de abuso. Ainda faltam estudos que mostrem o quanto isso ajuda.

Conclusão

Neste artigo explicamos para você o que as pesquisas mostram sobre autismo e sexualidade. O desejo existe, a orientação sexual é mais diversa e os sentidos podem mudar a forma de viver o toque. Vimos também que mulheres autistas merecem atenção à segurança e que conversar com clareza pode ajudar. Lembra de Marina? Com uma conversa franca, o abraço longo pode virar um abraço do jeito que ela gosta.

Se você tem dúvidas sobre TEA em adultos, uma avaliação pode ajudar. O Dr. Matheus Trilico atende adultos com TEA e TDAH em Curitiba. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Gostou? Então compartilhe o conhecimento!

Referências Bibliográficas

  1. Weir E, Allison C, Baron-Cohen S. The sexual health, orientation, and activity of autistic adolescents and adults. Autism Res. 2021;14(11):2342-2354. https://doi.org/10.1002/aur.2604
  2. George R, Stokes MA. Sexual Orientation in Autism Spectrum Disorder. Autism Res. 2018;11(1):133-141. https://doi.org/10.1002/aur.1892
  3. Gray S, Kirby AV, Graham Holmes L. Autistic Narratives of Sensory Features, Sexuality, and Relationships. Autism Adulthood. 2021;3(3):238-246. https://doi.org/10.1089/aut.2020.0049
  4. Sala G, Hooley J, Hooley M, Stokes MA. Comparing Physical Intimacy and Romantic Relationships of Autistic and Non-autistic Adults: A Qualitative Analysis. J Autism Dev Disord. 2024;54(10):3942-3951. https://doi.org/10.1007/s10803-023-06109-0
  5. Sala G, Hooley M, Stokes MA. Romantic Intimacy in Autism: A Qualitative Analysis. J Autism Dev Disord. 2020;50(11):4133-4147. https://doi.org/10.1007/s10803-020-04377-8
  6. Pecora LA, Hancock GI, Mesibov GB, Stokes MA. Characterising the Sexuality and Sexual Experiences of Autistic Females. J Autism Dev Disord. 2019;49(12):4834-4846. https://doi.org/10.1007/s10803-019-04204-9
  7. Dewinter J, Vermeiren R, Vanwesenbeeck I, van Nieuwenhuizen C. Autism and normative sexual development: a narrative review. J Clin Nurs. 2013;22(23-24):3467-3483. https://doi.org/10.1111/jocn.12397
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