Imagine esta cena fictícia. São oito e meia da noite, e o jantar estava marcado para as oito. Pedro, que tem Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), está concentrado no computador e esqueceu o horário. Ana, a namorada, fica magoada e pensa: “ele não se importa comigo”.
Em outra casa, Lucas, que tem Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), volta de uma festa barulhenta e passa uma hora calado. Carla, a esposa, acha que ele está bravo com ela. Lucas precisa de silêncio para se recuperar do barulho, mas não disse isso a ela. As duas cenas são inventadas, mas parecidas com o que muitos casais vivem.
TDAH e autismo no relacionamento podem mudar o jeito de o casal conversar, dividir tarefas e lidar com as emoções. Mas não impedem um relacionamento amoroso. Em um estudo alemão de 2017 com 229 adultos autistas que responderam a um questionário, 73% já tinham vivido um relacionamento. No TDAH, uma revisão de 2021 aponta em média relações mais curtas e com mais conflitos.
Neste texto sobre TDAH e autismo no relacionamento, mostramos o que seis pesquisas descobriram e o que pode ajudar no dia a dia.
Quer entender melhor? Então continue lendo!
Principais Tópicos Deste Artigo
Como o TDAH e o autismo aparecem no relacionamento amoroso?
No relacionamento amoroso, o TDAH costuma aparecer em esquecimentos, atrasos e reações rápidas e intensas. O autismo aparece mais no jeito de conversar, na dificuldade com indiretas e no incômodo com barulho, luz ou toque. As duas condições acompanham a pessoa desde a infância.
Nas cenas do começo, o esquecimento de Pedro e o silêncio de Lucas podiam ter outra explicação além da falta de carinho. Boa parte das brigas nasce quando um dos dois lê o comportamento do outro como desinteresse. A tabela mostra exemplos comuns de TDAH e autismo no relacionamento. Eles variam de pessoa para pessoa e, sozinhos, não indicam TDAH ou autismo.
| Situação do casal | Como pode aparecer no TDAH | Como pode aparecer no autismo |
|---|---|---|
| Conversa | Interromper, mudar de assunto, esquecer o que foi combinado | Entender tudo ao pé da letra, não perceber ironia ou indiretas |
| Emoções | Reagir rápido e forte, sentir-se muito afetado por críticas | Precisar de mais tempo para entender ou dizer o que sente, ou de silêncio para se acalmar |
| Tarefas de casa | Dificuldade para começar e terminar, atrasos | Gostar de saber o que vai acontecer; mudanças de última hora cansam mais |
| Vida social | Vontade de novidade e de fazer coisas diferentes | Cansaço em festas longas ou barulhentas |
É comum as duas condições aparecerem juntas, como explicamos no texto sobre autismo e TDAH em adultos. Há quem só receba o diagnóstico depois de anos de casamento. Veja por que nos textos sobre autismo em adultos e sobre déficit de atenção e hiperatividade no adulto.
No autismo e no TDAH, a pessoa pode se envolver tanto com um assunto que esquece do resto. No autismo, isso costuma vir de um interesse intenso. No TDAH, é chamado de hiperfoco e pode ter feito Pedro “sumir” no computador. Mas o que dizem as pesquisas sobre esses casais? Continue lendo que vamos mostrar a seguir!
O que os estudos dizem sobre TDAH e autismo no relacionamento?
Os estudos sobre TDAH e autismo no relacionamento mostram que muitos desses adultos vivem relacionamentos amorosos, mas com desafios diferentes. No TDAH, aparecem em média mais brigas e separações. No autismo, mais pessoas que nunca se casaram. São tendências de grupo, que não preveem o futuro de um casal.
O que acontece com o TDAH no relacionamento?
Quando o assunto é TDAH no relacionamento, muitas pesquisas apontam relações mais curtas e com mais conflitos. É o que conclui uma revisão de Wymbs e colegas (Journal of Marital and Family Therapy, 2021). Os autores avisam que ainda se estuda pouco o que fortalece esses casais.
Uma grande análise de 2023 reuniu 14 estudos sobre violência entre parceiros e violência sexual, com mais de 1,1 milhão de pessoas. Em seis estudos sobre quem agride e quatro sobre quem sofre, o TDAH apareceu ligado a mais casos de violência entre parceiros. Para quem sofre, o resultado foi menos preciso. O trabalho é de Arrondo e colegas, na revista Psychological Medicine.
Esse resultado mostra uma ligação, mas não prova que o TDAH cause violência. Também não quer dizer que uma pessoa com TDAH vá se envolver nela. Os autores dizem que a causa não está clara e recomendam informar a pessoa com TDAH, a família e o parceiro sobre a condição. Se você vive uma situação de violência, veja onde pedir ajuda em “Quando procurar ajuda”, mais abaixo.
O que acontece com o autismo no relacionamento?
Sobre o autismo no relacionamento, um dado surpreende muita gente: a maioria dos adultos autistas desse estudo quer um relacionamento amoroso. No estudo de Strunz e colegas (Journal of Clinical Psychology, 2017), 73% dos 229 adultos autistas ouvidos na Alemanha já tinham vivido um relacionamento. Só 7% não queriam um.

Outro achado chama atenção. A intensidade do autismo e a empatia não tiveram relação com estar ou não em um relacionamento. Mas vale um cuidado: todos foram descritos como autistas de “alto funcionamento”, um rótulo antigo e criticado, e a maioria respondeu pela internet. Os resultados não valem para todo o espectro. Entenda as diferenças nos níveis do autismo.
O que a pesquisa brasileira mostra sobre TDAH e autismo no relacionamento?
Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) comparou a vida amorosa de 306 adultos. O estudo é de Soares e colegas (Frontiers in Psychiatry, 2021). Os participantes foram divididos em quatro grupos: com sinais de autismo, com sintomas de TDAH, com os dois e sem nenhum deles.
Os resultados por grupo:
- Sinais de autismo: menos pessoas casadas e mais pessoas que nunca se casaram.
- Sintomas de TDAH: mais divórcios.
- TDAH, com ou sem autismo junto: pontuação mais alta em um questionário que mede a intensidade da paixão, em comparação com o grupo sem nenhuma das condições.
Para os autores, esses sintomas parecem influenciar de formas diferentes as experiências amorosas de curto e de longo prazo. Os grupos foram formados por sinais e sintomas, sem diagnóstico em consulta. E quando os dois do casal têm alguma dessas condições? Vamos ver agora!
Pessoas com TDAH ou autismo tendem a formar casal com alguém parecido?
Um grande estudo sueco sugere que isso acontece um pouco mais do que o acaso explicaria. Quem tem TDAH ou autismo costuma ser chamado de neurodivergente, palavra para um cérebro que funciona diferente da maioria. Ela não é um diagnóstico médico.
Na Suécia, Nordsletten e colegas analisaram registros de 707.263 pessoas com 11 condições psiquiátricas, entre elas TDAH e autismo, e de seus cônjuges. O estudo saiu na JAMA Psychiatry, em 2016. Casais em que os dois tinham alguma dessas condições apareceram um pouco mais do que o esperado. A semelhança foi um pouco maior quando a condição era a mesma.
O estudo não explica o porquê: pode ser atração ou frequentar os mesmos lugares. Ele também não testou se “os opostos se atraem”.
O estudo alemão de Strunz traz uma pista interessante. Pessoas autistas com parceiro também autista estavam mais satisfeitas com a relação do que as que tinham parceiros neurotípicos (sem autismo). Talvez falar “a mesma língua” diminua os mal-entendidos, mas isso ainda não foi comprovado.
E quando um tem autismo e o outro, TDAH? As necessidades podem puxar para lados diferentes:
- quem tem TDAH pode gostar de novidade e planos de última hora;
- quem é autista pode preferir rotina e lugares calmos;
- os dois podem precisar ouvir com clareza o que o outro sente.
Parece complicado? Calma! Conhecendo essas diferenças, fica mais fácil combinar o que cada um precisa. Vamos ver como!
Como cuidar da relação quando um dos dois tem TDAH ou autismo?
Para cuidar de TDAH e autismo no relacionamento, o primeiro passo é entender como a condição funciona naquela pessoa. Ana pode entender que o esquecimento de Pedro talvez tenha a ver com o TDAH. Assim, a conversa pode sair da acusação e ir para a solução. Pedro, por sua vez, continua responsável pelos combinados.
Um estudo sueco testou encontros em grupo para adultos com TDAH e pessoas próximas aprenderem sobre a condição. O conhecimento sobre o TDAH aumentou bastante, e mais de 90% foram até o fim. Já a satisfação geral não teve diferença clara em relação ao grupo de comparação, definido por sorteio. A pesquisa é de Hirvikoski e colegas (European Psychiatry, 2017).
Dicas para lidar com TDAH e autismo no relacionamento
Na experiência clínica, algumas atitudes simples podem ajudar muitos casais. Elas ainda não foram testadas em pesquisas com esses casais:
- Combinar por escrito. Agenda compartilhada e lembretes no celular podem ajudar quem tem TDAH a lembrar.
- Falar de forma direta. Para muitas pessoas autistas, um pedido claro funciona melhor do que uma indireta.
- Dar um tempo antes de discutir. Lucas e Carla, por exemplo, podem combinar um sinal para “preciso de silêncio agora”.
- Cuidar do ambiente. Menos barulho e luz forte deixam os encontros mais confortáveis para muitas pessoas autistas.
- Reparar quando algo dá errado. Um pedido de desculpas e um novo combinado valem mais do que justificativas.
- Tratar o que vem junto. Ansiedade, depressão e problemas de sono pesam na relação e têm tratamento.
A terapia de casal com um profissional que conheça TEA e TDAH também pode ajudar o relacionamento amoroso. Mas, no momento da escrita deste texto, ela ainda foi pouco estudada nesses casais.
Quando procurar ajuda?
Procure uma avaliação quando as dificuldades se repetem, fazem um dos dois sofrer ou ameaçam a relação, mesmo com o esforço do casal. Um neurologista ou psiquiatra pode investigar TDAH, autismo e outras condições. Na dúvida sobre qual procurar, leia neurologista ou psiquiatra: qual procurar.
Os testes de triagem para TEA e TDAH em adultos do blog ajudam a organizar a conversa com o médico. Eles não dão diagnóstico.
Em situação de violência, procure ajuda logo. Em perigo imediato, ligue 190 (Polícia Militar). Mulheres podem ligar para o Ligue 180, gratuito e 24 horas. O Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas com deficiência. A lei brasileira inclui as pessoas autistas nesse grupo. Se você percebe que perde o controle e agride, procure ajuda profissional.
Agende uma avaliação para TEA ou TDAH em adultos com o Dr. Matheus Trilico. Na consulta, o médico ouve a sua história desde a infância. Este texto não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.
Perguntas frequentes sobre TDAH e autismo no relacionamento
Pessoas com TDAH conseguem ter um relacionamento estável?
Sim, muitas pessoas com TDAH têm relacionamentos estáveis. As pesquisas mostram mais brigas em média, mas a média não define um casal. Tratamento, informação e combinados práticos, como agenda compartilhada, podem diminuir os atritos. Esquecimentos podem estar ligados ao TDAH, mas isso não dispensa pedir desculpas quando alguém se magoa.
Pessoa autista sente amor?
Sim, pessoas autistas sentem amor, e muitas querem ter um relacionamento. No estudo de Strunz e colegas (2017), só 7% dos 229 adultos autistas não queriam ter um relacionamento amoroso. O jeito de mostrar carinho pode mudar. Algumas pessoas autistas preferem gestos práticos a declarações, ou ficam melhor com menos contato físico. Conversar sobre isso evita que o parceiro confunda essas diferenças com desinteresse.
Como é namorar alguém com TDAH?
A experiência varia muito de casal para casal. Na pesquisa brasileira da UFMG (Soares e colegas, 2021), adultos com sintomas de TDAH pontuaram mais alto em um questionário sobre a intensidade da paixão. Isso, porém, não descreve todo relacionamento. Por outro lado, esquecimentos e reações por impulso podem cansar o parceiro quando se repetem. Combinar tarefas por escrito e falar com calma costuma ajudar mais do que cobrar em silêncio.
O TDAH pode atrapalhar um casamento?
As pesquisas ligam o TDAH a mais conflitos e separações, mas isso não é um destino. No estudo brasileiro da UFMG, o grupo com sintomas de TDAH teve mais divórcios. Esse dado descreve um grupo e não prevê o futuro de um casal. Diagnóstico, tratamento e informação podem mudar a forma de lidar com as dificuldades. Se as brigas se repetem, vale buscar avaliação e pensar em terapia de casal.
A terapia de casal ajuda no TDAH e no autismo?
A terapia de casal pode ajudar, principalmente com um profissional que conheça TEA e TDAH. Ela ainda foi pouco estudada nesses casais. Já os encontros para aprender sobre o TDAH foram testados: no estudo sueco de Hirvikoski e colegas (2017), o conhecimento sobre a condição aumentou bastante. Entender como cada um funciona costuma ser o ponto de partida.
Conclusão
Neste artigo explicamos para você como TDAH e autismo no relacionamento aparecem no dia a dia do casal e o que seis pesquisas mostram. Muitos desses adultos vivem relacionamentos amorosos, e alguns combinados práticos podem ajudar. Lembra de Ana e Pedro? Com informação e bons combinados, o jantar esquecido pode virar uma boa conversa.
Se você ou quem está ao seu lado se reconheceu neste texto, uma avaliação pode ajudar. O Dr. Matheus Trilico atende adultos com TEA e TDAH em Curitiba. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Gostou? Então compartilhe o conhecimento!
Referências Bibliográficas
- Wymbs BT, Canu WH, Sacchetti GM, Ranson LM. Adult ADHD and romantic relationships: What we know and what we can do to help. J Marital Fam Ther. 2021;47(3):664-681. https://doi.org/10.1111/jmft.12475
- Arrondo G, Osorio A, Magallón S, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder as a risk factor for being involved in intimate partner violence and sexual violence: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2023;53(16):7883-7892. https://doi.org/10.1017/S0033291723001976
- Strunz S, Schermuck C, Ballerstein S, et al. Romantic Relationships and Relationship Satisfaction Among Adults With Asperger Syndrome and High-Functioning Autism. J Clin Psychol. 2017;73(1):113-125. https://doi.org/10.1002/jclp.22319
- Soares LS, Alves ALC, Costa DS, et al. Common Venues in Romantic Relationships of Adults With Symptoms of Autism and Attention Deficit/Hyperactivity Disorder. Front Psychiatry. 2021;12:593150. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2021.593150
- Nordsletten AE, Larsson H, Crowley JJ, et al. Patterns of Nonrandom Mating Within and Across 11 Major Psychiatric Disorders. JAMA Psychiatry. 2016;73(4):354-361. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2015.3192
- Hirvikoski T, Lindström T, Carlsson J, et al. Psychoeducational groups for adults with ADHD and their significant others (PEGASUS): A pragmatic multicenter and randomized controlled trial. Eur Psychiatry. 2017;44:141-152. https://doi.org/10.1016/j.eurpsy.2017.04.005
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
CRM 35.805/PR – RQE 24.818