Laudo de autismo em adultos: quem pode dar, como é a avaliação e por que nenhum exame detecta

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Laudo de autismo em adultos: paciente conversa com o médico durante a avaliação no consultório
Laudo de autismo em adultos: quem pode dar, por que nenhum exame detecta o autismo, o que um estudo com 476 adultos mostrou sobre o teste online e o que levar para a consulta.
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Renata, 38 anos, chega ao consultório com uma folha impressa na mão. “Fiz o teste online e deu alto. Fiz também uma avaliação neuropsicológica. Já dá para sair daqui hoje com o laudo?” A pergunta é honesta. A resposta curta é: ainda não. (A Renata é uma personagem fictícia, inspirada em situações que vemos com frequência no consultório.)

O laudo de autismo em adultos é o documento em que um profissional registra o diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) depois de uma avaliação clínica. Não existe exame de sangue ou de imagem que detecte o autismo. Por isso, o laudo depende de conversa, história de vida e observação, em geral feitas por neurologista ou psiquiatra com experiência em adultos, muitas vezes junto com psicólogo ou neuropsicólogo.

Quer entender melhor? Então continue lendo!

Quem pode dar laudo de autismo em adultos?

No Brasil, quem pode dar laudo de autismo em adultos é o médico, em geral neurologista ou psiquiatra com experiência em TEA na vida adulta, e também o psicólogo, cada um no documento da sua profissão: médico faz o laudo médico; psicólogo faz o laudo psicológico. O que muda é a finalidade. Para alguns direitos, como a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA), criada pela Lei 13.977/2020, a lei pede um relatório médico com o código da Classificação Internacional de Doenças (CID).

Na prática, a especialidade importa menos do que a experiência. Muitos adultos autistas passaram décadas aprendendo a disfarçar. Quem avalia precisa saber procurar o que ficou escondido atrás desse esforço.

Neurologista pode dar laudo de autismo?

Sim, o neurologista pode dar laudo de autismo, em crianças e em adultos, depois de avaliar e fechar o diagnóstico. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, do jeito como o cérebro se formou desde cedo, tema da formação do neurologista. Se você está em dúvida entre as duas especialidades, explicamos as diferenças em neurologista ou psiquiatra: qual procurar.

E o psicólogo pode dar laudo de autismo?

Sim. O psicólogo, inclusive o especializado em neuropsicologia, pode avaliar e emitir um laudo psicológico com conclusão diagnóstica, sem precisar de assinatura médica. Alguns documentos, porém, exigem relatório médico com a CID, como a CIPTEA (Lei 13.977/2020). Se quiser entender esse exame, leia nosso texto sobre avaliação neuropsicológica em adultos.

Existe exame que detecta autismo em adultos?

Não existe exame que detecta autismo em adultos sozinho: nenhum exame de sangue, ressonância ou eletroencefalograma foi validado para confirmar ou descartar o diagnóstico. Um estudo publicado na revista Psychological Medicine em 2016 lembra que, como não há marcadores biológicos confiáveis, o diagnóstico depende de uma avaliação clínica feita por especialistas (Ashwood e colegas, 2016).

Os exames que o médico às vezes pede investigam outras condições ou algo que vem junto, como uma epilepsia. O teste genético entra em outra conta: pode ser indicado em situações específicas, para procurar uma causa, mas não diagnostica o autismo. Uma revisão na revista Nature Reviews Disease Primers (Lord e colegas, 2020) explica que as diferenças cerebrais vistas em pesquisas aparecem quando se comparam grupos e não servem para diagnosticar uma pessoa. Desconfie de quem promete um exame que detecta autismo, de laboratório ou de imagem, sem avaliação clínica.

Como é feita a avaliação para o laudo de autismo em adultos?

A avaliação para o laudo de autismo em adultos reconstrói a história de vida desde a infância e observa como a pessoa se comunica e se organiza hoje. Entram na conversa o contato com outras pessoas, a rotina, os interesses muito focados e a sensibilidade a sons, luzes ou texturas. Nenhuma característica isolada fecha o diagnóstico. Uma revisão na Lancet Psychiatry (Lai e Baron-Cohen, 2015) descreve as etapas: triagem, entrevistas com o paciente e com quem conviveu com ele, e avaliação do funcionamento no dia a dia.

Imagine a avaliação da Renata. As perguntas falam menos de “sintomas” e mais da vida. Como era o recreio? Por que o shopping no sábado a deixa exausta? O que acontece quando o plano muda na última hora? Numa das consultas, a mãe dela conta que, aos seis anos, Renata organizava os lápis por cor e chorava se alguém mexesse.

Em geral, a avaliação passa por estes passos:

  1. Conversa longa com o paciente sobre a infância, a escola, o trabalho, os relacionamentos e o que mais cansa.
  2. Conversa com alguém que conheceu a pessoa na infância, quando é possível (pai, mãe, irmão).
  3. Questionários e escalas, que organizam as informações, mas não decidem sozinhos.
  4. Avaliação neuropsicológica, quando o médico acha que ela vai ajudar.
  5. Investigação de condições parecidas ou associadas, como ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
  6. Devolutiva, a consulta em que o resultado é explicado com calma. A avaliação pode confirmar o TEA, apontar outra explicação ou mostrar que ainda faltam informações, e o laudo registra o que foi concluído.

Lai e Baron-Cohen chamam atenção para algo que vemos com frequência no consultório: ansiedade, depressão e transtornos de personalidade podem tanto esconder o autismo quanto se parecer com ele. Nas mulheres, o risco de erro de diagnóstico parece maior. É por isso que a avaliação costuma levar mais de um encontro. Sobre esse disfarce, vale ler o que escrevemos sobre camuflagem no autismo.

O que levar para a consulta?

Quanto mais pistas da infância você levar, mais rica fica a avaliação. Não precisa de nada sofisticado (ninguém vai pedir o boletim do pré, mas se ele estiver na gaveta da sua mãe, traga!). E, se você não tiver nada disso ou ninguém para conversar, procure a avaliação mesmo assim. Se possível, leve:

  • anotações sobre o que te faz desconfiar de autismo, com exemplos do dia a dia;
  • boletins, cadernos, vídeos ou relatos da escola, se existirem;
  • um familiar ou amigo antigo que possa conversar com o médico;
  • relatórios de psicólogos, psiquiatras ou outros médicos que você já consultou;
  • o resultado do teste online que você fez, como ponto de partida da conversa.

Teste online dá laudo de autismo em adultos?

Não. Teste online não dá laudo de autismo em adultos, porque questionário é triagem: mostra se vale investigar, e não se a pessoa é autista. Uma nota alta não confirma o TEA, e uma nota baixa não descarta a necessidade de avaliação. O nosso teste de autismo em adultos e os outros testes de autismo e TDAH do blog servem para isso: organizar a suspeita e levar para a consulta.

Ashwood e colegas (2016) avaliaram 476 adultos atendidos em sequência num serviço nacional de referência em Londres, todos com suspeita de autismo; 73% receberam o diagnóstico. Antes, 456 tinham respondido ao questionário AQ (Quociente do Espectro do Autismo), de 50 perguntas, e dessas respostas os pesquisadores tiraram a versão curta, a AQ-10. Nela, “acima do corte” é 6 pontos ou mais, a nota a partir da qual o questionário sugere investigar.

Laudo de autismo em adultos: gráfico mostra que a pontuação no AQ-10 não previu o diagnóstico em 476 adultos
Entre adultos com suspeita de autismo avaliados num serviço de referência em Londres, a pontuação no AQ-10 não previu quem receberia o diagnóstico. Valores aproximados; não representam a chance de quem faz um teste online. Gráfico do blog com dados de Ashwood et al., Psychological Medicine, 2016.

Entre quem pontuou acima do corte, 24 em cada 100 não receberam o diagnóstico. E, entre quem pontuou abaixo do corte, 64 em cada 100 receberam. Na prática, a nota ajudou pouco a separar quem seria diagnosticado, e menos ainda a descartar o autismo. No mesmo estudo, a ansiedade generalizada aumentava a pontuação, e a versão longa se saiu só um pouco melhor. O estudo foi feito num único centro, com pessoas que já chegavam com suspeita forte, então os números não valem para a população em geral nem para quem faz um teste em casa.

Uma revisão de 20 estudos na revista Autism (Wigham e colegas, 2019) chegou a uma conclusão parecida. Os questionários funcionam melhor em quem já tem diagnóstico do que em quem está sendo avaliado, e têm dificuldade de separar autismo de outras condições de saúde mental.

O que o laudo de autismo precisa ter?

Um bom laudo de autismo em adultos conta como o diagnóstico foi feito, e não traz só o código da CID. Ele traz a identificação da pessoa e do profissional (com registro, data e assinatura), o resumo da história e os questionários e entrevistas usados. Também descreve quais critérios do diagnóstico foram observados e o nível de suporte, isto é, quanto apoio a pessoa precisa no dia a dia. Fecha com as condições associadas e as recomendações. Quando o TDAH também está presente, combinação chamada informalmente de “AuTDAH” ou “AuDHD”, os dois diagnósticos devem aparecer pelo nome no documento.

Na CID-11, da Organização Mundial da Saúde, o autismo tem o código 6A02. Na CID-10, ainda usada em muitos documentos no Brasil, os códigos ficam no grupo F84. Antes de pedir o laudo, pergunte ao órgão o que ele exige, porque cada um tem as suas regras:

Para que você precisa do laudoO que costuma ser pedido
CIPTEA (carteira de identificação)Relatório médico com o código da CID, segundo a Lei 13.977/2020
Direitos da pessoa com deficiênciaLaudo do diagnóstico; a Lei 12.764/2012 garante que a pessoa autista seja considerada pessoa com deficiência para efeitos legais
Plano de saúde, INSS, concurso ou empresaVaria; alguns pedem perícia, avaliação social ou formulário próprio
Tratamento e acompanhamentoNenhum laudo é necessário para consultar e tratar ansiedade, sono ou cansaço; algumas terapias pelo plano podem pedir laudo

Ter o laudo não libera nenhum benefício sozinho: cada direito tem seus próprios requisitos, que podem incluir outros documentos ou perícias. Diagnóstico não é troféu e não é sentença. Ele ajuda a pessoa a entender a própria história e a pedir o apoio de que precisa. Se você quer saber mais sobre essa discussão, leia autismo é deficiência?.

Quando procurar avaliação?

Vale procurar avaliação quando as dificuldades com pessoas, mudanças ou barulho vêm desde a infância e estão custando caro hoje. Estão atrapalhando seu trabalho? Seus relacionamentos? Você chega em casa sem energia para nada depois de um dia “normal”? Essas dificuldades podem ter outras explicações. E você pode procurar ajuda mesmo sem lembrar com clareza de sinais na infância. Os sinais de autismo em adultos que descrevemos no nosso guia ajudam a organizar essa suspeita.

Uma revisão sobre o diagnóstico na vida adulta (Huang e colegas, 2020) mostrou que o caminho até o laudo de autismo em adultos costuma ser confuso e diferente para cada pessoa, e que o diagnóstico mexe com as emoções. Isso é esperado. Pode ser conversado na devolutiva. Este texto não substitui uma consulta: só a avaliação com um profissional experiente pode dizer se é autismo, outra condição ou as duas coisas.

Se você se reconheceu na Renata, agende uma avaliação para autismo em adultos com o Dr. Matheus Trilico.

Perguntas frequentes sobre laudo de autismo em adultos

Existe laudo de autismo online?

A teleconsulta é permitida no Brasil (Lei 14.510/2022 e Resolução CFM 2.314/2022) e pode ser usada na avaliação de adultos, desde que tenha entrevista completa e, de preferência, conversa com um familiar, com a autorização do paciente. Cabe ao médico dizer se a distância basta ou se é preciso atendimento presencial, e ninguém pode garantir o laudo antes da avaliação. O que não existe é laudo emitido só a partir de um teste online respondido na internet. Se alguém oferece laudo depois de um formulário, sem consulta, desconfie. Entenda como funciona a teleconsulta.

Como conseguir o laudo de autismo pelo SUS?

O caminho para o laudo de autismo em adultos pelo SUS começa na Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico da UBS avalia e, se houver suspeita, encaminha para neurologia, psiquiatria, ambulatório de saúde mental ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), conforme a organização do seu município. A espera pode ser longa e varia de cidade para cidade.

O laudo de autismo tem validade?

O autismo acompanha a pessoa a vida toda, então o diagnóstico não “vence”. Mas cada órgão define que documento aceita e de quando ele deve ser. Algumas leis estaduais e municipais tratam da validade do laudo. Já a CIPTEA vale por cinco anos e deve ser revalidada com o mesmo número (Lei 13.977/2020); esse prazo é da carteira, e não do diagnóstico. Antes de qualquer pedido, confira a regra do seu estado e do órgão.

Quanto tempo demora para sair o laudo de autismo?

O tempo até o laudo de autismo em adultos depende de quanta informação já existe e de quantas condições parecidas precisam ser investigadas. Em adultos, a avaliação costuma levar mais de uma consulta. Desconfie da pressa: um laudo feito em poucos minutos, sem história da infância, tende a ser frágil quando alguém o questiona.

Preciso do laudo para começar o tratamento?

Não. Ansiedade, insônia, exaustão e dificuldades no trabalho podem ser tratadas enquanto a avaliação acontece. O laudo ajuda a organizar o cuidado e a garantir direitos, mas ninguém precisa esperar por ele para começar a se sentir melhor.


A Renata saiu da primeira consulta sem laudo e com uma tarefa: conversar com a mãe e procurar os cadernos antigos. Voltou com uma caixa de sapatos cheia de lembranças. A pontuação dela no teste era alta, mas foi a conversa, e não o número, que mostrou o que vinha da infância e o que era ansiedade. E você, o que guardaria nessa caixa? Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Gostou? Então compartilhe o conhecimento!

Referências Bibliográficas

  1. Ashwood KL, Gillan N, Horder J, et al. Predicting the diagnosis of autism in adults using the Autism-Spectrum Quotient (AQ) questionnaire. Psychol Med. 2016;46(12):2595-2604. https://doi.org/10.1017/S0033291716001082
  2. Lai MC, Baron-Cohen S. Identifying the lost generation of adults with autism spectrum conditions. Lancet Psychiatry. 2015;2(11):1013-1027. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(15)00277-1
  3. Wigham S, Rodgers J, Berney T, et al. Psychometric properties of questionnaires and diagnostic measures for autism spectrum disorders in adults: A systematic review. Autism. 2019;23(2):287-305. https://doi.org/10.1177/1362361317748245
  4. Huang Y, Arnold SR, Foley KR, Trollor JN. Diagnosis of autism in adulthood: A scoping review. Autism. 2020;24(6):1311-1327. https://doi.org/10.1177/1362361320903128
  5. Lord C, Brugha TS, Charman T, et al. Autism spectrum disorder. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):5. https://doi.org/10.1038/s41572-019-0138-4
  6. Brasil. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
  7. Brasil. Lei nº 13.977, de 8 de janeiro de 2020. Altera a Lei nº 12.764/2012 e cria a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea).
  8. Brasil. Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022. Autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional.
  9. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.314/2022. Define e regulamenta a telemedicina como forma de serviços médicos mediados por tecnologias de comunicação.
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