TDAH e compulsão alimentar dividem parte da herança genética, sugerem gêmeos britânicos acompanhados até os 26 anos

9 minutos
TDAH e compulsão alimentar: adulto jantando com calma à mesa da cozinha, com prato de arroz e legumes
Estudo de 2026 com quase 13 mil pares de gêmeos sugere que TDAH e compulsão alimentar dividem raízes genéticas com o peso. Entenda e saiba mais.
9 minutos

TDAH e compulsão alimentar é a combinação, em uma mesma pessoa, de sintomas de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) com episódios de compulsão por comida. Na compulsão, a pessoa come muito em pouco tempo e sente que perdeu o controle. Um estudo de 2026 com quase 13 mil pares de gêmeos sugere que essa ligação tem raízes genéticas em comum com o peso.

O trabalho saiu em 30 de setembro de 2026 na revista Psychological Medicine e acompanhou gêmeos britânicos dos 4 aos 26 anos. A relação entre TDAH e peso corporal já era conhecida, mas faltava entender o papel da compulsão nesse caminho. Neste artigo, explicamos o que o novo estudo encontrou, o que ele não permite concluir e quando vale procurar avaliação.

Quer entender melhor? Então continue lendo!

O que é TDAH e compulsão alimentar?

Compulsão alimentar é a ocorrência de episódios em que a pessoa come uma quantidade grande de comida em pouco tempo, com sensação de não conseguir parar, muitas vezes às escondidas. Quando esses episódios se repetem e trazem sofrimento, podem configurar o transtorno de compulsão alimentar, um diagnóstico que só um profissional de saúde pode fazer.

O TDAH, por sua vez, é uma condição do neurodesenvolvimento (ou seja, ligada à forma como o cérebro se desenvolve desde a infância), marcada por desatenção, impulsividade e hiperatividade, que continua na vida adulta em muitas pessoas. Explicamos os sinais e o diagnóstico no texto sobre o déficit de atenção e hiperatividade no adulto.

Sintomas de TDAH são comuns entre adultos com transtornos alimentares. Em um estudo sueco com 1.165 adultos atendidos em uma clínica especializada (Svedlund e colaboradores, BMC Psychiatry, 2017), 31,3% pontuaram acima do ponto de corte de um questionário de rastreio para TDAH. Nos grupos que incluíam o transtorno de compulsão alimentar, as taxas ficaram entre 26% e 31%.

A ligação com o peso também é conhecida. Uma meta-análise de Cortese e colaboradores (American Journal of Psychiatry, 2016), com 42 estudos e 728.136 pessoas, encontrou obesidade em 28,2% dos adultos com TDAH e em 16,4% dos adultos sem TDAH. Mas, afinal, a compulsão é o elo entre as duas coisas? É isso que o novo estudo investigou.

O que o estudo com gêmeos descobriu sobre TDAH e compulsão alimentar?

Segundo You e colaboradores (Psychological Medicine, 2026), sintomas de TDAH, sintomas de compulsão alimentar e índice de massa corporal (IMC, a relação entre peso e altura) compartilham influências genéticas. À primeira vista, a compulsão parecia ser a ponte entre o TDAH e o peso. Quando a genética entrou nos modelos, essa mediação (o papel de ponte) deixou de ser estatisticamente significativa. Para os autores, isso sugere que a ligação se deve em grande parte a influências genéticas compartilhadas.

Como o estudo sobre TDAH e compulsão alimentar foi feito?

Os pesquisadores, do King’s College London e de outras instituições do Reino Unido e dos Estados Unidos, usaram o Twins Early Development Study (TEDS), que acompanha gêmeos nascidos na Inglaterra e no País de Gales entre 1994 e 1996. Segundo o resumo, a amostra teve 4.363 pares de gêmeos idênticos e 8.575 pares de gêmeos não idênticos, com 49,9% de participantes do sexo masculino. Nem todos responderam em todas as fases: mais de 7.500 pares tinham dados de TDAH na infância e mais de 4.500, no início da vida adulta. A pesquisa foi pré-registrada na plataforma Open Science Framework.

  • Sintomas de TDAH: questionários respondidos pelos pais na infância (4 a 9 anos) e na adolescência (12 a 16 anos), e pelos pais e pelo próprio jovem aos 21 anos.
  • Sintomas de compulsão alimentar: três perguntas aos 21 anos, sobre se a pessoa se empanturra de comida, pensa em comer em excesso e come ou bebe escondido.
  • Peso: IMC aos 26 anos, calculado com peso e altura informados pelos participantes.

Estudos com gêmeos funcionam como um experimento natural. Gêmeos idênticos compartilham praticamente todos os genes, e os não idênticos, em média, metade. Se os idênticos se parecem mais entre si, é sinal de influência genética. Com base nisso, os modelos estimam quanto das diferenças entre os participantes se deve a fatores genéticos e quanto se deve ao ambiente.

Quais foram os números sobre TDAH e compulsão alimentar?

Aos 26 anos, o IMC médio foi de 24,74; 23,0% dos participantes tinham sobrepeso (IMC de 25 a menos de 30) e 13,8% tinham obesidade (IMC de 30 ou mais). As ligações entre as três características foram pequenas, como mostra o gráfico abaixo.

TDAH e compulsão alimentar: correlação de 0,06 na infância, 0,10 na adolescência e 0,25 aos 21 anos em gêmeos
Correlação entre sintomas de TDAH em cada fase da vida e sintomas de compulsão alimentar aos 21 anos. Gráfico elaborado pelo blog com dados do texto integral de You et al., Psychological Medicine, 2026.
Relação medidaCorrelaçãoLeitura
Sintomas de TDAH aos 21 anos e compulsão aos 21 anos0,25A maior das três correlações entre TDAH e compulsão, ainda pequena
Sintomas de TDAH na adolescência e compulsão aos 21 anos0,10Pequena
Sintomas de TDAH na infância e compulsão aos 21 anos0,06Muito pequena
Sintomas de TDAH em cada fase e IMC aos 26 anos0,11 a 0,18Pequena
Compulsão aos 21 anos e IMC aos 26 anos0,24Pequena

A correlação vai de -1 a 1 e mede o quanto duas características variam juntas no grupo. Ela não prova que uma causa a outra e não prevê o que acontece com uma pessoa específica.

A compulsão é a ponte entre TDAH e obesidade?

Na primeira análise, que ignorava a genética, os sintomas de compulsão alimentar explicaram uma parte da ligação entre TDAH e IMC. O efeito indireto foi de 0,05 a partir dos sintomas da adolescência (intervalo de confiança de 95%, ou seja, faixa de valores compatíveis com os dados, de 0,03 a 0,08) e de 0,03 a partir dos sintomas aos 21 anos (0,01 a 0,05). Na infância, ele não foi estatisticamente significativo. Vale lembrar que os sintomas de TDAH e de compulsão do início da vida adulta foram medidos na mesma idade, aos 21 anos.

Quando os modelos passaram a considerar genes e ambiente, a mediação deixou de ser estatisticamente significativa. O modelo que melhor se ajustou aos dados foi um em que as três características dividem fatores genéticos, sem caminhos diretos de uma para a outra. Para os autores, a mediação vista antes foi em grande parte confundida por influências genéticas compartilhadas, o que não exclui outros caminhos que o estudo não mediu.

Quanto pesa a genética em cada característica?

Segundo You e colaboradores (2026), a genética respondeu por cerca de 33% das diferenças nos sintomas de compulsão alimentar entre os participantes, e o ambiente próprio de cada pessoa, por cerca de 67%. No IMC, a parcela genética chegou a 75% nos modelos de uma característica por vez. Nos sintomas de TDAH aos 21 anos, a herdabilidade (parte das diferenças explicada pelos genes) foi de 0,43.

Esses percentuais são estimativas para o grupo estudado e não identificam quais experiências pesam. A parcela ambiental também inclui erros de medida. E o que esses números mudam no dia a dia? Veja a seguir.

Quais são os limites do estudo com gêmeos?

O estudo de You e colaboradores (2026) acompanhou milhares de gêmeos dos 4 aos 26 anos e foi pré-registrado, mas os próprios autores apontam limites importantes para a leitura dos resultados:

  • Sintomas medidos por questionário. Os questionários mediram sintomas; diagnósticos clínicos ficaram fora da avaliação.
  • Medicação não considerada. As análises não levaram em conta diagnóstico de TDAH nem tratamento com remédios, que podem mexer com apetite e peso.
  • Só três perguntas sobre compulsão. Outros comportamentos alimentares, como comer além do necessário sem um episódio de compulsão, podem ligar TDAH e peso e não foram avaliados separadamente.
  • Outras condições não analisadas. Ansiedade, depressão e doenças clínicas que influenciam o peso não foram consideradas.
  • Perdas ao longo do tempo. Quem tinha sintomas mais intensos na infância deixou o estudo com mais frequência.
  • Peso informado pelo participante. IMC autorrelatado tende a se aproximar da média.

Os participantes são jovens adultos britânicos de 21 a 26 anos; não sabemos se os resultados valem igualmente para outras idades ou para a população brasileira. Na prática, os números descrevem tendências de grupo.

O que isso muda para adultos com TDAH?

Para adultos com TDAH, o estudo sugere que sintomas de compulsão e IMC mais alto podem ter, em parte, a mesma predisposição genética dos sintomas de TDAH, o que ajuda a afastar a culpa. Os autores propõem que o cuidado olhe para mecanismos comuns de autorregulação (a capacidade de controlar impulsos, emoções e comportamentos) e para padrões de sintomas dentro da família.

  1. Tirar a culpa da conversa. Na nossa interpretação, saber que pode existir uma base compartilhada ajuda a falar do assunto sem vergonha.
  2. Olhar para a família. Os autores sugerem dar mais atenção a padrões de sintomas entre parentes.
  3. Cuidar da autorregulação. Intervenções podem focar em mecanismos de controle de impulsos comuns às três características, segundo os autores.
  4. Avaliar o conjunto. Na nossa interpretação, quando há TDAH e episódios de compulsão, vale investigar os dois juntos.

O estudo não testou nenhum tratamento. As sugestões acima são caminhos de cuidado, a serem discutidos com quem acompanha você. Quem convive com TDAH no trabalho sabe que rotinas imprevisíveis também mexem com horários de refeição, um ponto que vale levar à consulta.

Quando procurar ajuda?

Vale procurar avaliação quando episódios de comer sem controle se repetem, trazem culpa ou vergonha, ou aparecem junto de desatenção e impulsividade que atrapalham a rotina. Um neurologista ou psiquiatra pode avaliar o TDAH, e o cuidado da alimentação pode envolver nutricionista e psicólogo. Procure avaliação se você:

  • come escondido ou sente que não consegue parar de comer com frequência;
  • suspeita de TDAH desde a infância, mas nunca foi avaliado;
  • percebe que o peso mudou muito sem uma explicação clara;
  • convive também com ansiedade ou tristeza persistente (veja se o neurologista trata ansiedade);
  • tem dúvidas sobre o efeito da sua medicação no apetite (nunca suspenda ou altere o remédio por conta própria).

Questionários online servem apenas como triagem. A Escala de Autoavaliação de TDAH em Adultos (ASRS-18) é um ponto de partida, mas o diagnóstico só pode ser feito em consulta.

Agende uma avaliação para TDAH em adultos e converse sobre alimentação, rotina e tratamento. Este texto é educativo e não substitui a avaliação médica individual. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta.

Quais são as dúvidas frequentes sobre o tema?

As dúvidas mais comuns sobre TDAH e alimentação envolvem causa, peso, genética e tratamento. As respostas abaixo se baseiam principalmente no estudo com gêmeos de You e colaboradores (2026) e, quando indicado, nas outras fontes citadas neste artigo, sempre com os limites de cada uma.

TDAH causa compulsão alimentar?

O estudo de You e colaboradores (2026) não sustenta que o TDAH cause a compulsão alimentar. As duas características aparecem juntas com mais frequência, mas, quando a genética foi considerada, a mediação pela compulsão deixou de ser significativa, o que sugere influência de fatores genéticos compartilhados. Isso quer dizer que algumas pessoas podem ter predisposição às duas coisas. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, considerando rotina, emoções e outras condições de saúde.

Quem tem TDAH tende a engordar?

No estudo britânico, os sintomas de TDAH tiveram ligação pequena com o IMC aos 26 anos, com correlações de 0,11 a 0,18; o estudo mediu o IMC uma vez, sem acompanhar a mudança de peso. Isso descreve uma tendência no grupo e não prevê o peso de ninguém. Na meta-análise de Cortese e colaboradores (2016), a obesidade foi mais frequente em adultos com TDAH, mas quem usava medicação para TDAH não teve risco maior de obesidade. O estudo com gêmeos não avaliou o efeito de remédios.

Compulsão alimentar é genética?

Em parte: no estudo com gêmeos, a genética respondeu por cerca de 33% das diferenças nos sintomas de compulsão alimentar, e o ambiente próprio de cada pessoa, por cerca de 67%. Ou seja, a herança conta, mas não explica tudo. O estudo não identificou quais fatores ambientais pesam, e essa parcela também inclui erros de medida. Na nossa interpretação, isso reforça que a compulsão merece avaliação individual.

O tratamento do TDAH ajuda na compulsão alimentar?

O estudo não avaliou tratamento, por isso não permite responder a essa pergunta. Os autores lembram que remédios para TDAH podem reduzir apetite e peso, o que pode mexer nos comportamentos alimentares. Qualquer decisão sobre medicação é individual e deve ser conversada com o seu médico, sem mudanças por conta própria. Abordagens psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental para TDAH, também podem entrar no plano de cuidado.

Isso vale para quem tem AuTDAH?

O estudo não avaliou autismo, então não traz dados sobre AuTDAH, sigla usada para quem tem Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e TDAH ao mesmo tempo, chamada em inglês de AuDHD. Na nossa interpretação, nesse grupo a avaliação da alimentação deve ser ainda mais individual, considerando as particularidades de cada pessoa. Entenda essa sobreposição em autismo e TDAH em adultos.

Conclusão

Neste artigo explicamos para você o que é TDAH e compulsão alimentar e o que um estudo de 2026 com quase 13 mil pares de gêmeos revelou sobre essa relação. Segundo You e colaboradores (2026), sintomas de TDAH, sintomas de compulsão alimentar e IMC compartilham influências genéticas, e a mediação pela compulsão deixou de ser significativa quando a genética foi considerada. Mostramos também que as correlações foram pequenas e que o estudo mediu sintomas, sem avaliar medicação.

Na nossa interpretação, a mensagem principal é de acolhimento: comer por impulso pode ter relação com uma predisposição e merece cuidado sem culpa. Se você quer entender os riscos do TDAH ao longo da vida, veja o texto sobre TDAH e expectativa de vida. Se você precisa de um neurologista em Curitiba e região, conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Este conteúdo não substitui a avaliação médica.

Gostou? Então compartilhe o conhecimento!

Referências Bibliográficas

  1. You Y, McAdams TA, Oginni O, Liu C, Herle M, Zavos HMS. Exploring the role of binge eating symptoms in the association between ADHD and BMI: a twin study. Psychol Med. 2026;56:e308. PMID: 42813442. DOI: 10.1017/S0033291726105935. Disponível no PubMed.
  2. Svedlund NE, Norring C, Ginsberg Y, von Hausswolff-Juhlin Y. Symptoms of Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) among adult eating disorder patients. BMC Psychiatry. 2017;17(1):19. PMID: 28095885. DOI: 10.1186/s12888-016-1093-1.
  3. Cortese S, Moreira-Maia CR, St Fleur D, Morcillo-Peñalver C, Rohde LA, Faraone SV. Association Between ADHD and Obesity: A Systematic Review and Meta-Analysis. Am J Psychiatry. 2016;173(1):34-43. PMID: 26315982. DOI: 10.1176/appi.ajp.2015.15020266.
0 0 votos
Nota deste artigo
Inscrever
Notificação de
guest
0 Comentários
Mais votados
Mais novos Mais antigos
Compartilhe o post:

Posts relacionados

plugins premium WordPress
0
Será ótimo saber sua opinião, por favor comente!x