TDAH e compulsão alimentar é a combinação, em uma mesma pessoa, de sintomas de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) com episódios de compulsão por comida. Na compulsão, a pessoa come muito em pouco tempo e sente que perdeu o controle. Um estudo de 2026 com quase 13 mil pares de gêmeos sugere que essa ligação tem raízes genéticas em comum com o peso.
O trabalho saiu em 30 de setembro de 2026 na revista Psychological Medicine e acompanhou gêmeos britânicos dos 4 aos 26 anos. A relação entre TDAH e peso corporal já era conhecida, mas faltava entender o papel da compulsão nesse caminho. Neste artigo, explicamos o que o novo estudo encontrou, o que ele não permite concluir e quando vale procurar avaliação.
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O que é TDAH e compulsão alimentar?
Compulsão alimentar é a ocorrência de episódios em que a pessoa come uma quantidade grande de comida em pouco tempo, com sensação de não conseguir parar, muitas vezes às escondidas. Quando esses episódios se repetem e trazem sofrimento, podem configurar o transtorno de compulsão alimentar, um diagnóstico que só um profissional de saúde pode fazer.
O TDAH, por sua vez, é uma condição do neurodesenvolvimento (ou seja, ligada à forma como o cérebro se desenvolve desde a infância), marcada por desatenção, impulsividade e hiperatividade, que continua na vida adulta em muitas pessoas. Explicamos os sinais e o diagnóstico no texto sobre o déficit de atenção e hiperatividade no adulto.
Sintomas de TDAH são comuns entre adultos com transtornos alimentares. Em um estudo sueco com 1.165 adultos atendidos em uma clínica especializada (Svedlund e colaboradores, BMC Psychiatry, 2017), 31,3% pontuaram acima do ponto de corte de um questionário de rastreio para TDAH. Nos grupos que incluíam o transtorno de compulsão alimentar, as taxas ficaram entre 26% e 31%.
A ligação com o peso também é conhecida. Uma meta-análise de Cortese e colaboradores (American Journal of Psychiatry, 2016), com 42 estudos e 728.136 pessoas, encontrou obesidade em 28,2% dos adultos com TDAH e em 16,4% dos adultos sem TDAH. Mas, afinal, a compulsão é o elo entre as duas coisas? É isso que o novo estudo investigou.
O que o estudo com gêmeos descobriu sobre TDAH e compulsão alimentar?
Segundo You e colaboradores (Psychological Medicine, 2026), sintomas de TDAH, sintomas de compulsão alimentar e índice de massa corporal (IMC, a relação entre peso e altura) compartilham influências genéticas. À primeira vista, a compulsão parecia ser a ponte entre o TDAH e o peso. Quando a genética entrou nos modelos, essa mediação (o papel de ponte) deixou de ser estatisticamente significativa. Para os autores, isso sugere que a ligação se deve em grande parte a influências genéticas compartilhadas.
Como o estudo sobre TDAH e compulsão alimentar foi feito?
Os pesquisadores, do King’s College London e de outras instituições do Reino Unido e dos Estados Unidos, usaram o Twins Early Development Study (TEDS), que acompanha gêmeos nascidos na Inglaterra e no País de Gales entre 1994 e 1996. Segundo o resumo, a amostra teve 4.363 pares de gêmeos idênticos e 8.575 pares de gêmeos não idênticos, com 49,9% de participantes do sexo masculino. Nem todos responderam em todas as fases: mais de 7.500 pares tinham dados de TDAH na infância e mais de 4.500, no início da vida adulta. A pesquisa foi pré-registrada na plataforma Open Science Framework.
- Sintomas de TDAH: questionários respondidos pelos pais na infância (4 a 9 anos) e na adolescência (12 a 16 anos), e pelos pais e pelo próprio jovem aos 21 anos.
- Sintomas de compulsão alimentar: três perguntas aos 21 anos, sobre se a pessoa se empanturra de comida, pensa em comer em excesso e come ou bebe escondido.
- Peso: IMC aos 26 anos, calculado com peso e altura informados pelos participantes.
Estudos com gêmeos funcionam como um experimento natural. Gêmeos idênticos compartilham praticamente todos os genes, e os não idênticos, em média, metade. Se os idênticos se parecem mais entre si, é sinal de influência genética. Com base nisso, os modelos estimam quanto das diferenças entre os participantes se deve a fatores genéticos e quanto se deve ao ambiente.
Quais foram os números sobre TDAH e compulsão alimentar?
Aos 26 anos, o IMC médio foi de 24,74; 23,0% dos participantes tinham sobrepeso (IMC de 25 a menos de 30) e 13,8% tinham obesidade (IMC de 30 ou mais). As ligações entre as três características foram pequenas, como mostra o gráfico abaixo.

| Relação medida | Correlação | Leitura |
|---|---|---|
| Sintomas de TDAH aos 21 anos e compulsão aos 21 anos | 0,25 | A maior das três correlações entre TDAH e compulsão, ainda pequena |
| Sintomas de TDAH na adolescência e compulsão aos 21 anos | 0,10 | Pequena |
| Sintomas de TDAH na infância e compulsão aos 21 anos | 0,06 | Muito pequena |
| Sintomas de TDAH em cada fase e IMC aos 26 anos | 0,11 a 0,18 | Pequena |
| Compulsão aos 21 anos e IMC aos 26 anos | 0,24 | Pequena |
A correlação vai de -1 a 1 e mede o quanto duas características variam juntas no grupo. Ela não prova que uma causa a outra e não prevê o que acontece com uma pessoa específica.
A compulsão é a ponte entre TDAH e obesidade?
Na primeira análise, que ignorava a genética, os sintomas de compulsão alimentar explicaram uma parte da ligação entre TDAH e IMC. O efeito indireto foi de 0,05 a partir dos sintomas da adolescência (intervalo de confiança de 95%, ou seja, faixa de valores compatíveis com os dados, de 0,03 a 0,08) e de 0,03 a partir dos sintomas aos 21 anos (0,01 a 0,05). Na infância, ele não foi estatisticamente significativo. Vale lembrar que os sintomas de TDAH e de compulsão do início da vida adulta foram medidos na mesma idade, aos 21 anos.
Quando os modelos passaram a considerar genes e ambiente, a mediação deixou de ser estatisticamente significativa. O modelo que melhor se ajustou aos dados foi um em que as três características dividem fatores genéticos, sem caminhos diretos de uma para a outra. Para os autores, a mediação vista antes foi em grande parte confundida por influências genéticas compartilhadas, o que não exclui outros caminhos que o estudo não mediu.
Quanto pesa a genética em cada característica?
Segundo You e colaboradores (2026), a genética respondeu por cerca de 33% das diferenças nos sintomas de compulsão alimentar entre os participantes, e o ambiente próprio de cada pessoa, por cerca de 67%. No IMC, a parcela genética chegou a 75% nos modelos de uma característica por vez. Nos sintomas de TDAH aos 21 anos, a herdabilidade (parte das diferenças explicada pelos genes) foi de 0,43.
Esses percentuais são estimativas para o grupo estudado e não identificam quais experiências pesam. A parcela ambiental também inclui erros de medida. E o que esses números mudam no dia a dia? Veja a seguir.
Quais são os limites do estudo com gêmeos?
O estudo de You e colaboradores (2026) acompanhou milhares de gêmeos dos 4 aos 26 anos e foi pré-registrado, mas os próprios autores apontam limites importantes para a leitura dos resultados:
- Sintomas medidos por questionário. Os questionários mediram sintomas; diagnósticos clínicos ficaram fora da avaliação.
- Medicação não considerada. As análises não levaram em conta diagnóstico de TDAH nem tratamento com remédios, que podem mexer com apetite e peso.
- Só três perguntas sobre compulsão. Outros comportamentos alimentares, como comer além do necessário sem um episódio de compulsão, podem ligar TDAH e peso e não foram avaliados separadamente.
- Outras condições não analisadas. Ansiedade, depressão e doenças clínicas que influenciam o peso não foram consideradas.
- Perdas ao longo do tempo. Quem tinha sintomas mais intensos na infância deixou o estudo com mais frequência.
- Peso informado pelo participante. IMC autorrelatado tende a se aproximar da média.
Os participantes são jovens adultos britânicos de 21 a 26 anos; não sabemos se os resultados valem igualmente para outras idades ou para a população brasileira. Na prática, os números descrevem tendências de grupo.
O que isso muda para adultos com TDAH?
Para adultos com TDAH, o estudo sugere que sintomas de compulsão e IMC mais alto podem ter, em parte, a mesma predisposição genética dos sintomas de TDAH, o que ajuda a afastar a culpa. Os autores propõem que o cuidado olhe para mecanismos comuns de autorregulação (a capacidade de controlar impulsos, emoções e comportamentos) e para padrões de sintomas dentro da família.
- Tirar a culpa da conversa. Na nossa interpretação, saber que pode existir uma base compartilhada ajuda a falar do assunto sem vergonha.
- Olhar para a família. Os autores sugerem dar mais atenção a padrões de sintomas entre parentes.
- Cuidar da autorregulação. Intervenções podem focar em mecanismos de controle de impulsos comuns às três características, segundo os autores.
- Avaliar o conjunto. Na nossa interpretação, quando há TDAH e episódios de compulsão, vale investigar os dois juntos.
O estudo não testou nenhum tratamento. As sugestões acima são caminhos de cuidado, a serem discutidos com quem acompanha você. Quem convive com TDAH no trabalho sabe que rotinas imprevisíveis também mexem com horários de refeição, um ponto que vale levar à consulta.
Quando procurar ajuda?
Vale procurar avaliação quando episódios de comer sem controle se repetem, trazem culpa ou vergonha, ou aparecem junto de desatenção e impulsividade que atrapalham a rotina. Um neurologista ou psiquiatra pode avaliar o TDAH, e o cuidado da alimentação pode envolver nutricionista e psicólogo. Procure avaliação se você:
- come escondido ou sente que não consegue parar de comer com frequência;
- suspeita de TDAH desde a infância, mas nunca foi avaliado;
- percebe que o peso mudou muito sem uma explicação clara;
- convive também com ansiedade ou tristeza persistente (veja se o neurologista trata ansiedade);
- tem dúvidas sobre o efeito da sua medicação no apetite (nunca suspenda ou altere o remédio por conta própria).
Questionários online servem apenas como triagem. A Escala de Autoavaliação de TDAH em Adultos (ASRS-18) é um ponto de partida, mas o diagnóstico só pode ser feito em consulta.
Agende uma avaliação para TDAH em adultos e converse sobre alimentação, rotina e tratamento. Este texto é educativo e não substitui a avaliação médica individual. Conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta.
Quais são as dúvidas frequentes sobre o tema?
As dúvidas mais comuns sobre TDAH e alimentação envolvem causa, peso, genética e tratamento. As respostas abaixo se baseiam principalmente no estudo com gêmeos de You e colaboradores (2026) e, quando indicado, nas outras fontes citadas neste artigo, sempre com os limites de cada uma.
TDAH causa compulsão alimentar?
O estudo de You e colaboradores (2026) não sustenta que o TDAH cause a compulsão alimentar. As duas características aparecem juntas com mais frequência, mas, quando a genética foi considerada, a mediação pela compulsão deixou de ser significativa, o que sugere influência de fatores genéticos compartilhados. Isso quer dizer que algumas pessoas podem ter predisposição às duas coisas. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, considerando rotina, emoções e outras condições de saúde.
Quem tem TDAH tende a engordar?
No estudo britânico, os sintomas de TDAH tiveram ligação pequena com o IMC aos 26 anos, com correlações de 0,11 a 0,18; o estudo mediu o IMC uma vez, sem acompanhar a mudança de peso. Isso descreve uma tendência no grupo e não prevê o peso de ninguém. Na meta-análise de Cortese e colaboradores (2016), a obesidade foi mais frequente em adultos com TDAH, mas quem usava medicação para TDAH não teve risco maior de obesidade. O estudo com gêmeos não avaliou o efeito de remédios.
Compulsão alimentar é genética?
Em parte: no estudo com gêmeos, a genética respondeu por cerca de 33% das diferenças nos sintomas de compulsão alimentar, e o ambiente próprio de cada pessoa, por cerca de 67%. Ou seja, a herança conta, mas não explica tudo. O estudo não identificou quais fatores ambientais pesam, e essa parcela também inclui erros de medida. Na nossa interpretação, isso reforça que a compulsão merece avaliação individual.
O tratamento do TDAH ajuda na compulsão alimentar?
O estudo não avaliou tratamento, por isso não permite responder a essa pergunta. Os autores lembram que remédios para TDAH podem reduzir apetite e peso, o que pode mexer nos comportamentos alimentares. Qualquer decisão sobre medicação é individual e deve ser conversada com o seu médico, sem mudanças por conta própria. Abordagens psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental para TDAH, também podem entrar no plano de cuidado.
Isso vale para quem tem AuTDAH?
O estudo não avaliou autismo, então não traz dados sobre AuTDAH, sigla usada para quem tem Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e TDAH ao mesmo tempo, chamada em inglês de AuDHD. Na nossa interpretação, nesse grupo a avaliação da alimentação deve ser ainda mais individual, considerando as particularidades de cada pessoa. Entenda essa sobreposição em autismo e TDAH em adultos.
Conclusão
Neste artigo explicamos para você o que é TDAH e compulsão alimentar e o que um estudo de 2026 com quase 13 mil pares de gêmeos revelou sobre essa relação. Segundo You e colaboradores (2026), sintomas de TDAH, sintomas de compulsão alimentar e IMC compartilham influências genéticas, e a mediação pela compulsão deixou de ser significativa quando a genética foi considerada. Mostramos também que as correlações foram pequenas e que o estudo mediu sintomas, sem avaliar medicação.
Na nossa interpretação, a mensagem principal é de acolhimento: comer por impulso pode ter relação com uma predisposição e merece cuidado sem culpa. Se você quer entender os riscos do TDAH ao longo da vida, veja o texto sobre TDAH e expectativa de vida. Se você precisa de um neurologista em Curitiba e região, conheça melhor o Dr. Matheus Trilico e agende sua consulta. Este conteúdo não substitui a avaliação médica.
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Referências Bibliográficas
- You Y, McAdams TA, Oginni O, Liu C, Herle M, Zavos HMS. Exploring the role of binge eating symptoms in the association between ADHD and BMI: a twin study. Psychol Med. 2026;56:e308. PMID: 42813442. DOI: 10.1017/S0033291726105935. Disponível no PubMed.
- Svedlund NE, Norring C, Ginsberg Y, von Hausswolff-Juhlin Y. Symptoms of Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) among adult eating disorder patients. BMC Psychiatry. 2017;17(1):19. PMID: 28095885. DOI: 10.1186/s12888-016-1093-1.
- Cortese S, Moreira-Maia CR, St Fleur D, Morcillo-Peñalver C, Rohde LA, Faraone SV. Association Between ADHD and Obesity: A Systematic Review and Meta-Analysis. Am J Psychiatry. 2016;173(1):34-43. PMID: 26315982. DOI: 10.1176/appi.ajp.2015.15020266.
Dr. Matheus Trilico é neurologista referência no diagnóstico e acompanhamento de TEA e TDAH em adultos. Formado em medicina pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA) e com residência em Neurologia pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre também pela UFPR. Além de atuar como neurologista em consultório privado e trabalhou por anos no Sistema Único de Saúde (SUS), realizando também atividades acadêmicas. Dr. Matheus Trilico acredita que o ser humano precisa conhecer bem sua saúde e, por isso, transmite as informações sobre o quadro clínico de forma clara e didática, reafirmando seu compromisso com a exímia relação médico-paciente. Amante da tecnologia, busca utilizá-la para agregar conhecimento e facilitar a vida dos pacientes, mas sem perder seu foco: o humanismo e a qualidade do atendimento médico.
CRM 35.805/PR – RQE 24.818